A importância do testemunho

by escrever como?

Os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração são os que imagino reunirem maior dificuldade de objectividade, estruturação, fio condutor e dinâmica no momento da escrita.

A literatura mais famosa deste género será a dos campos de extermínio nazi e os do gulag soviético: em relato autobiográfico ou ficcional, dói imaginar como pode alguém se sentar frente ao papel branco e assentar de modo ordenado, minimamente bem escrito, o relato da humilhação, do medo, da dor, da privação, da morte, do sadismo e de tudo o mais que estas narrativas nos trazem.

Se algum autor compôs obras-primas, muitos outros limitaram-se a descrever, com mais ou menos rigor, o que passou, o que presenciaram e sofreram, o que escutaram de outros. Neste caso, a objectividade salva a obra de toda a ausência de atractivos estilísticos, literários ou outros.

Como os livros escritos pelos ex-combatentes, esse é o maior valor destes testemunhos, romanceados ou não: o ter estado lá, ter visto e ouvido, ter experimentado sofrido, e, passado anos, ter conseguido rememorar.

Rememorar é o aguilhão comum a todos os que escrevem (ou querem escrever), tanto em verso como em prosa. Que pode interessar ao eventual leitor as memórias de alguém? Que valor tem vidas e eventos que aconteceram há dezenas, às vezes centenas, de anos? Será pela notoriedade duns e doutros? Ou pela sua excepcionalidade? Ou, talvez, por pertencerem a um passado morto e enterrado que já nem se suspeitava?

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