É assim tão importante ser original?

by escrever como?

A originalidade, tal como tantos conceitos, tem uma história relativamente recente. Durante milhares de anos e até, mais ou menos, ontem, o grande objectivo da aprendizagem era reproduzir modelos consagrados.

Platão, por exemplo, escrevia como se fosse o mestre Sócrates quem dissera o que ele, Platão, argumentava. Sócrates, por sua vez, apelava às reminiscências de vidas passadas (a crer em Platão) e ao seu demónio interior.

Os quatro evangelistas limitaram-se a escrever conforme o Espírito Santo ditava (ou inspirava) e Maomé não escreveu o Corão de outra maneira (neste caso, via o arcanjo Gabriel). (ver nota aqui)

Os grandes textos de culturas milenares como a egípcia ou a indiana são, geralmente, o resultado de outras tantas inspirações divinas.

No Ocidente, na Antiguidade como na Idade Média, valorizava-se o argumento da autoridade, a tradição e a aprendizagem segundo os cânones. O conceito de autor existia, mas o da originalidade nem por isso. Havia razões práticas, claro: o comprador daquilo que, simplificando, chamamos livro (objecto caro e raro) não pagava para estar a par das novidades, mas para participar da sabedoria e santidade que só um autor consagrado (senão mesmo mitificado) lhe iria proporcionar pela simples posse do referido objecto. Essa sabedoria ou santidade não era suposta ser “original” (no sentido de único), mas genuína (no sentido de verdadeiro).

2004-03-21

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