Memória selectiva

by escrever como?

Shakespeare escreveu dramas passados num suposto momento da história de Roma, com a atenção virada para os dramas contemporâneos. Não escreveu “ficção histórica”.

Tolkien escreveu narrativas a partir do material tradicional de mitos e lendas nórdicos. Não criou novos mitos, nem novas lendas.

Caeiro escreveu “O Guardador de Rebanhos” porque chegou a ser pastor em certa altura da vida, apesar de também ser um dos heterónimos de Fernando Pessoa, que era uma criatura decididamente urbana.

Que interessa a “autoridade” em qualquer um destes exemplos?

Autoridade, sim, têm milhares de militares, diplomatas, políticos e outros figurões que participaram activamente em acontecimentos que marcam as vidas de milhões de pessoas. Muitos deles deixaram, e continuam a deixar, suas autobiografias, suas memórias, suas cartas, seu testemunho, uns em jeito de defesa, outros de justificação, quase todos por terem noção de que a História talvez não lhes faça justiça.

Contudo, quantos destes livros escapam à crítica impiedosa que denuncia o facciosismo, o branqueamento, a omissão, a mentira, e todos os artifícios que lavam os pecados duma vida pública?

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