Mentiras de Um de Abril

by escrever como?

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

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Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios.

O recurso a uma fórmula literária pode ser o artifício possível para falar duma época, duma problemática, sem o espartilho dos factos, dos nomes, das datas. Lendo as Viagens de Gulliver , de Jonathan Swift, reconhecemos uma apreciação crítica à sociedade da sua época, apesar da presença de gigantes e de cavalos falantes.

Os franceses consagraram a expressão “roman à clef” para obras literárias que pretendem referir-se a pessoas e factos concretos, ao abrigo do disfarce de personagens e situações fictícias, mas que os leitores podem descodificar, “convertendo” nomes e peripécias à realidade que se reporta.

A sátira é, por isso, uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares.

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