Neuras literárias

by escrever como?

O tédio e a loucura surgem como dois agentes literários por excelência, com variações na melancolia, no desespero, “le mal de vivre”, etc.

“Há dias que deviam vir com um aviso:
Hoje vai ser um dia detestável, por isso larga o café e mete-te nos copos”

A loucura pode ser expressão de amores insatisfeitos: no sec.XVII, as famosas cartas atribuídas a Mariana de Alcoforado (Lettres portugaises) são um exemplo flagrante do género e que se tornou um best-seller mundial. A poesia de Florbela Espanca, no sec.XX, contém a mesma dimensão trágica e intensa.

O tédio, por sua vez, pode levar à infracção social (o adultério em Madame Bovary de Flaubert ou o Primo Basílio de Eça de Queirós). A que se pode associar os sentimentos de indiferença/afastamento/rejeição na relação com a envolvente social, inclusive familiar (ver Kafka, A metamorfose; Camus, O Estrangeiro; Bernardo Soares, O Livro do Desassossego).

Sob o olhar crítico do louco ou do entediado, as normas e hábitos sociais são absurdos e opressivos, as pessoas ditas normais não vivem a vida plenamente, por falta de coragem ou por nem disso serem conscientes, a sociedade é hipócrita.

Para um, o amor proibido seria a redenção; para o outro, não há salvação possível, mas existem paliativos, o cinismo pode ser uma defesa, a ausência de valores torna-se uma filosofia. Comum a ambos, ainda, o recurso à fuga para um mundo interior, donde o exterior é visto através duma lente muito própria.

Terrenos pantanosos para quem se inicia na escrita, mas onde também podem brilhar pérolas extraordinárias.

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