Música e polifonia na construção do texto

by escrever como?

Mazurca para dois mortos, de Camilo José Cela, assenta sobre um texto “oral” dum narrador obscuro, “perdido” entre vozes que vêm a propósito de algo que o narrador acaba de dizer. (ver nota 1)

As “vozes” acrescentam peças ao mosaico (ou ao tema musical, provavelmente) que o leitor terá de montar para concluir o livro. Deste modo, o leitor demorará algum tempo a perceber se há enredo, e havendo, qual seja.

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A forte componente poética do texto associa-se à verbalização incontinente de tantas vozes distintas, todas marcadas fortemente pela língua galaico-portuguesa e pelo imaginário rural do noroeste peninsular, carregando consigo pequenos episódios da vida de pessoas que se vão revelando por fragmentos de suas vidas.

Num registo (aparentemente) circular, formam um texto da maior beleza e harmonia, riquíssimo, fiel ao registo histórico duma época, e simultaneamente intemporal. (ver nota 2)

Por tudo isto, o livro exige do leitor a entrega e a participação na composição, como se fosse mais um dos dançarinos desta mazurca. N’ O Malhadinhas, o narrador desenvolve uma história linear, ainda que volta-e-meia pontuada por reflexões ou à partes; no Grande Sertão: Veredas, o narrador anda perdido nas suas reflexões e memórias, mas o enredo progride até à inevitável conclusão.

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Na Mazurca para dois mortos, o processo é menos evidente dada a polifonia das vozes que se “intrometem” no discurso do narrador, o qual, além de discreto também é vago, dando a ilusão de acumular repetições, quando, na verdade, acrescenta mais um ponto ao conto. (ver nota 3)

Porém, o enredo torna-se claro, dando sentido ao título e a conclusão (previsível a partir de certo ponto) é completada por um “anexo” totalmente alheio aos recursos estilísticos do resto do livro. Anexo, aliás, que é um texto com a  rigorosa formatação técnica do seu género, e por isso surpreende.

Deste modo aparentemente simples e desordenado,  uma estrutura complexa e de grande risco para o autor se vai revelando e permite aceder ao mais íntimo das memórias do narrador, trazendo à vida as pessoas “daquele tempo”, abrindo-se-nos as portas para um mundo que também é o da Língua Portuguesa e o do Norte de Portugal. E inúmeros temas se abrem à curiosidade do leitor, outros tantos caminhos para novas leituras. 

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