Críticas, critérios e cretinos

by escrever como?

O problema da crítica começa logo no sentido atribuído a “crítica”. No uso corrente, a crítica é sempre negativa, depreciativa, destrutiva, senão mesmo ofensiva; porém, a raiz etimológica da palavra e o seu uso erudito (na filosofia, na ciência, nas artes) tem um sentido instrumental, mais do que valorativo: trata-se duma apreciação, duma avaliação, dum julgamento.

Uma crítica positiva que valorize um poema ou um livro, p.ex., está tão obrigada a justificar sua apreciação, seu juízo, quanto uma crítica negativa. Aliás, a crítica nem tem de se posicionar como positiva/negativa. Sua função vai muito além do “balanço geral”, e é especialmente útil para o debate e progresso do conhecimento, como para o exercício do gosto e da criatividade.

-Gostas de poesia americana? -Naah, muitos verbos. -Canadiana? -Demasiado uso da voz passiva. -E que tal a polaca? -Demasiadas consoantes. -Escocesa? -Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

-Gostas de poesia americana?
-Naah, muitos verbos.
-Canadiana?
-Demasiado uso da voz passiva.
-E que tal a polaca?
-Demasiadas consoantes.
-Escocesa?
-Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

Vista assim, rareiam espaços e oportunidades para o exercício da crítica. E não admira: nada mais difícil do que assumir um critério, justificando razões, aceitando críticas à crítica e rebatendo-as de modo coerente e fundamentado, ou evoluir na própria argumentação a ponto de, inclusivamente, admitir erros ou reformular radicalmente o juízo inicial. Na verdade, a crítica é um diálogo e uma construção em progresso permanente.

As caricaturas de crítica que vulgarmente se ouvem e se lêem não passam de manifestações de gosto ou de carácter, coisas totalmente alheias à crítica como aqui se entende.

Quando o Leitor deste blog se queixar da falta de hábitos de leitura, do pouco interesse pelos livros e/ou boa literatura (e quem diz literatura, diz de qualquer arte), pense nisto: sem críticos, não há apreciadores.

E a crítica pode ser cruel, fria e desapiedada? Não, cruel nunca: a crueldade é uma patologia mental, e a crítica é uma actividade racional saudável e estimulante à convivência, mesmo quando não seja simpática aos nossos ouvidos. Porque o seu propósito não é reconfortar o ego dos autores, nem divertir leitores, mas obrigá-los a confrontar-se com suas próprias limitações. E seguirem todos mais além do horizonte da crítica.

poetry-or-how-much-is-your-life-worth

POESIA! ou: quanto vale a tua vida?
-Pá, os teus poemas mudaram a minha vida!
-Oh, obrigado! Queres comprar o livro? São 10 euros.
-Oh, umm…não obrigado.
-…
(tal como me foi contado por john t. unger)

Anúncios