Viajar é preciso

by escrever como?

Já é uma tradição antiga desconfiar da veracidade do conteúdo dos livros de viagem, senão na totalidade, pelo menos de certas passagens aparentemente fabulosas. O que é tanto mais extraordinário nas épocas em que o mito, a religião e a lenda se cruzavam indiferenciadamente no conhecimento histórico e geográfico da época.

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O trabalho de autores escrupulosos e a necessidade prática de usar esses relatos para futuras viagens terá aguçado o espírito crítico destas leituras. Porém, se já faz algum tempo que se torna inverosímil relatar que em determinadas zonas da Terra existem dragões ou homens sem cabeça, outros problemas se colocam na apreciação da literatura de viagem.

Nomeadamente preconceitos sexistas, etnocêntricos, racistas, entre outros, distorcem de maneira mais ou menos evidente factos e observações, graças à peculiar lente pela qual o observador narra suas viagens. O termo “orientalismo” foi crismado por Edward Said para criticar o olhar europeu (ou Ocidental) sobre outras culturas e povos.

Daí ser legítimo perguntar que necessidade terá o autor dum livro de viagens de acrescentar alguma ficção, mesmo que de modo evidente e assumido. Tornar a leitura mais interessante? Certamente, mas porque não tornar interessante, ou mais interessante, o relato propriamente dito?

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É como se fosse preciso viajar até aos antípodas e visitar aldeias de canibais para se poder escrever sobre alguma coisa que motive a leitura. De facto, o mundo está cada vez mais pequeno, somos cada vez mais os que viajamos entre continentes, todos temos histórias sobre os mesmos sítios exóticos. E fotos e vídeos para ilustrar.

Aí está um desafio para quem escreve sobre suas viagens: abordar o já conhecido por um ângulo diferente, com a sensibilidade própria, sem com isso ceder ao preconceito. O facto de se fazerem certos percursos de comboio, de bicicleta ou à boleia já marca uma diferença em relação ao automóvel ou ao avião; a interação com os outros é sempre diferente de pessoa para pessoa, conforme todos nos podemos aperceber na nossa vida quotidiana. O sentido de observação, o humor, a cultura, fazem a diferença entre relatos sobre a mesma realidade.

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Admito que certos roteiros possam desviar o autor para um registo mais confessional, introspectivo, levando-o a fantasiar (seja sobre uma pedra enorme na encosta dum monte, seja sobre o brilho dum sorriso que se cruze com ele no caminho), e que a escolha de certos temas de viagem (o Caminho de Santiago, a vida desta ou daquela personalidade das artes ou da história, os bares de praia da costa algarvia) seja um incentivo a divagações e porque não? a ficções.

Se, a páginas tantas duma viagem de comboio, o autor acorda entre duas estações e, à sua frente, estão sentados uma bela rapariga ou um senhor distinto e impecavelmente vestido que, em ambos os casos, lhe prometem uma série de benesses em troca duma gota de sangue para firmar um contrato, porque hei-de duvidar, por um instante que seja, da verdade desse relato? Haverá alguém a quem não tenha acontecido algo semelhante?

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