Escrever como quem explica

by escrever como?

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

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