Escrever como quem vagueia

by escrever como?

Caminhos escritos com um horizonte longínquo cada vez mais perto, mas ao qual nunca chegamos. E a que sempre regressamos. O pretexto como se desenvolvem outros temas à volta do tema central, numa espécie de peregrinação ou viagem cujo destino final é conhecido, mas que o leitor nem pode imaginar qual seja sem chegar ao fim. Paradoxal? Claro que sim. 

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“Nenhum autor foi ferido ou maltratado na preparação desta história.”

Neste caso, o livro que me ocorre com mais nitidez é um outro título falsamente “geográfico”: Danúbio, de Cláudio Magris (ed.Quetzal). Bem, talvez eu esteja a exagerar um pouco, afinal o início do livro coincide com o início do rio Danúbio (a busca da nascente mítica e a verdadeira); e depois acompanhamos o autor ao longo do curso das águas (quase 2900 km) até à foz.

Mas cedo descobrimos que o rio é pretexto, senão metonímia,  duma aventura cultural: a cultura centro-europeia (Mitteleuropa).

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E até as longínquas águas do Tejo reforçam a corrente da bacia cultural do Danúbio: “Utilizar o termo ‘empregado’ como uma injúria não passa duma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este não se parece com Aquiles ou Diomedes, que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém”. 

E mais adiante, continua: “Kafka e Pessoa viajam não até ao fim duma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.” O curioso contraponto que estabelece à ‘viagem’ de Kafka e Pessoa são a banalidade do mal, a guerra total, a mentira odiosa, a hipocrisia.

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Mas não é do Danúbio que falamos? Não te impacientes, leitor(a): o homem é um professor de Línguas e Literaturas Germânicas e desce a corrente do rio para nos propor conhecer uma paisagem menos evidente. A dado passo diz que para o autor romeno  Mihail Sadoveanu, é “…como se o Danúbio levasse para o mar e espalhasse à sua volta, galgando as margens, destroços de séculos e de civilizações.

Remota fronteira do Império Romano, fronteira belicosa entre os Impérios Austro-Húngaro e o Turco, fortíssima corrente que une países, que nem assentam nas suas margens, numa história comum, este rio imenso arrasta o autor para as águas que lhe são familiares e preferidas, e com ele o leitor que se deixe fascinar por esta viagem pela cultura europeia.

Em sua defesa, a citação do austríaco Franz Tumler: “Escrever sobre o Danúbio não é fácil, porque o rio flui contínuo e indistinto, ignorando as proposições e a linguagem que articulam e cindem a unidade do vivido.”

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Há quem escreva como quem navega, bússola e mapas debaixo do olho, rumo ao incerto horizonte.

E quem escreva como o rio que vagueia sinuoso, depositando sedimentos aqui, arrastando tudo nas águas violentas ali, desaparecendo da superfície por momentos, e logo reaparecendo mais adiante. Por vezes, sua nascente perde-se no tempo, assim como desagua no mar através dum delta tão variável, quanto impreciso.

Ou como contava aquele empregado do patrão Vasques: “Devaneio entre Cascais e Lisboa. (…) Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação dessas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho do visível. (…) O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.” (Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

 

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