‘Ouça um bom conselho, que eu lhe dou de graça…’ *

by escrever como?

* início duma conhecida canção de Chico Buarque
 

Num livro autobiográfico, cujo nome não recordo agora, o escritor Stefan Zweig aconselha todo o principiante na arte da escrita a tentar traduzir um livro, estratagema que, a ele, terá resultado muito bem.

Também não recordo as razões porque recomenda a tradução, mas creio que sejam a inevitável reflexão sobre a estrutura da obra, a percepção da perspectiva que o autor desenvolve (entre outras possíveis), o modo como aborda e desenvolve temas e personagens.

Lost in translation

Lost in translation

Não recordo ainda se outra das razões porque ele recomendava a tradução teria a ver com o que talvez se possa chamar abordagem estruturalista da língua: sempre que experimento traduzir um texto, seja do familiar castelhano, seja do inglês, mesmo um incompetente usuário da gramática como eu sente o vigor, a elasticidade, a sonoridade e o amparo das regras que nos bancos de escola pareciam tão desnecessárias quanto aborrecidas.

Parece-me tentador seguir esta recomendação, não fosse o meu pessimismo sobre as ‘competências’ (na horrorosa terminologia dominante) linguísticas da maioria dos escrevinhadores actuais. Zweig é de um tempo, lugar e condição social que favorecia especialmente as ‘competências’ poliglotas e literárias.

Ao escrever num blog que pode ser lido por qualquer um das muitas dezenas de milhões de falantes da Língua Portuguesa, sem limitações geográficas, assumo o risco da redundância, repetindo-me frequentemente: o gosto de escrever e de contar estórias, fazer história ou explicar coisas, exige algum domínio formal da língua, vulgo gramática, e vocabulário.

Sem esse domínio mínimo, torna-se complicado (se bem que não impossível) ter ‘fôlego’ para pensar, estruturar e desenvolver um texto longo com valor literário.

Frequentemente, textos e projectos de livros que leio revelam carências básicas neste capítulo, sem que os escrevinhadores tenham, aparentemente, consciência do problema.

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padre: Este é o corpo de Cristo…
legenda: O momento em que qualquer criança esclarecida percebe que a espécie humana tem problemas.

E falta de leitura é outra carência comum a muitos dos que se propõe escrever, mesmo quando escrevem segundo as boas regras da gramática.

Por tudo isto, a recomendação de Stefan Zweig pode ser óptima, mas receio que inútil para a maioria de nós.

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

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