A fraqueza do estereótipo

by escrever como?

Sobre o tema dos estereótipos levantaram-me algumas questões, assim tentarei agora explicar-me melhor.

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O estereótipo do ‘grande guerreiro’ tem suas origens antropológicas e registo na literatura oral e escrita mais remota e universal. No sec.XXI podemos constatar que o estereótipo não perdeu nada em violência e fúria, apesar de já não ter ligações ao divino, nem ter implicações morais e culturais.

Provavelmente, sofre a mesma alienação característica das sociedades actuais, vagueando entre o niilismo e qualquer forma de psicopatia. Porém, ainda no sec.XX, o ‘super-herói’ era do ‘Bem’ e lutava inequivocamente contra o ‘Mal’, muitas vezes identificados com países e ideologias políticas reais.

Na literatura europeia, o ‘grande guerreiro’ por antonomásia é Aquiles, filho duma deusa e dum rei, criado entre os homens por um centauro: é ele quem comanda na batalha, embora se distinga mais pela fúria e vigor do que pelas excelências tácticas ou pelo sentido do dever.

Na Ilíada, Homero relata abundante e detalhadamente as venturas e desventuras de Aquiles na Guerra de Tróia, mas dificilmente se pode dizer que o leitor fique cativo pelo retrato de criatura tão arrogante quanto caprichosa (nesse sentido, é um herói de manga). Na mesma obra surge um outro personagem, guerreiro não menos valoroso e respeitado, e que é o exacto contraponto ao estereótipo do ‘grande guerreiro’: Heitor.

Tem sido assinalado que serão das páginas mais belas e comoventes da literatura universal as passagens sobre Heitor em relação à sua mulher e filhos (ver nota). Este é um guerreiro que tendo o sentido mais elevado do dever e da honra, tem-no por amor à sua cidade, ao seu povo e à sua família. A glória, a ambição ou a riqueza não motivam os seus actos heróicos  Ao contrário de Aquiles, é um ‘condutor’ de homens e tem objectivos que transcendem o seu interesse e fama pessoal.

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Na altura em que o poema terá sido composto, este Heitor seria uma versão diferente do tema do ‘grande guerreiro’, e mais do que uma versão, uma evolução. De certo modo, pressagia o guerreiro da Pólis com séculos de antecedência, que presta serviço militar por dever e para defesa da comunidade, mas que anseia pelo tempo de paz para regressar aos seus afazeres profissionais e prazeres domésticos.

Na Idade Média europeia o tema desenvolveu-se muito na linha do herói Aquiles, com variações notáveis como as expressas nos romances de cavalaria. O género caiu em desuso -ridículo?- por força das transformações sociais e outras, mas sempre se mantém o estereotipo do ‘cavaleiro andante’ valoroso, generoso, etc. Porém, dificilmente sobreviverá ao ridículo da confrontação com essa outra fuga ao estereótipo: Don Quixote de La Mancha, personagem do livro de Miguel Cervantes.

Assim, cuidado ao repetir modelos consagrados: podem já ter passado o prazo de validade.

-Que estás a ver, Papá? -Nada!

-Que estás a ver, Papá?
-Nada.

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