Todo o mundo e ninguém

by escrever como?

Como contar a vida do homem comum? Simples: do nascimento à morte na sequência cronológica natural, as personagens com quem se cruza na vida entrando ou saindo da narrativa, com destaque para os episódios marcantes e saltos no tempo sobre os períodos sem história.

'Sossega, querida__mudar é bom'

‘Sossega, querido__mudar é bom’

Ou começa-se logo pelo enterro, desfilando as pessoas que o conheceram e ainda estão vivas, cada qual com suas lembranças, seus ressentimentos e simpatias. Em poucas linhas a memória do falecido é marcada pela contradição e ambiguidade. Um ser humano, enfim. Como todo o mundo, aliás.

O mais novo, Lonny, avançou primeiro para a sepultura. Mas assim havia agarrado um pouco de terra, o seu corpo inteiro começou a tremer e a abanar (…). Ele foi dominado por um sentimento para com o seu pai que não era antagonismo mas que o seu antagonismo lhe negava os meios para libertar. (…) parecia que o que quer que fosse que o tinha agarrado nunca o largaria‘*

Em seguida fazer um deslocamento temporal para trás, para o tempo em que o morto era vivo, mas já aflito com o acumular dos anos e com a saúde; saltando, mais uma vez, no tempo e sempre para trás até à tenra infância, prosseguindo a partir daqui na ordem cronológica habitual.

'La ruptura', según Gilbert Garcin

‘La ruptura’, según Gilbert Garcin

Um homem comum e de quem não sabemos o nome…mas que falta faz um nome?! É um homem comum, banal como todos os outros. Ao acompanha-lo e aos que se cruzam com ele, somos omniscientes das suas memórias, emoções, pensamentos.

E banais são suas preocupações, seus remorsos, seus fracassos, seus êxitos, suas alegrias.

 ‘(…) ele estava somente nos seus sessentas quando a sua saúde começou a ameaça-lo todo o tempo. Tinha casado três vezes, teve amantes e filhos e um emprego interessante onde tinha sido bem-sucedido, mas agora, eludir a morte parecia ter-se tornado a ocupação central da sua vida e a decadência física ter-se tornado sua estória inteira.’*

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A história do homem comum é a história, detalhes à parte, de toda a gente. Que pode suscitar uma reflexão pungente e resignada a compartilhar, por exemplo, com a própria filha:

Não há maneira de refazer a realidade, aceita as coisas como são. Aguenta-te e aceita as coisas como são. Não há outra maneira.’ *

Escrever como quem descobre a fragilidade humana sem pieguice, nem moralismo, fiel à verdade variável duma vida em mudança, mesmo depois da morte.

* citações retiradas de Everyman de Philip Roth, editado em Portugal com o título Todo-o-Mundo(ed. Dom Quixote)
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