‘Quem conta um conto, acrescenta um ponto’

by escrever como?

 O escrevinhador pode facilitar a sua ‘tarefa’ escrevendo pequenas estórias onde oferece ao leitor outras tantas perspectivas singulares da realidade comum às personagens que nela vivem e se cruzam. Podem ser narrativas independentes, mas ganham dimensão e sentido lidas em conjunto. Esta é uma dica que tem exemplos notáveis.

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Na tradição literária europeia, duas grandes obras, ambas do sec.XIV, utilizam a técnica de recitação de contos através de personagens reunidos num contexto excepcional: O Decameron de Bocaccio e Os Contos da Cantuária de Chaucer.

Cada um destes livros apresenta um determinado número de narradores que se propõem contar uns aos outros uma estória.

No caso d’ O Decameron, os narradores obedecem a um tema (que irá variar dia após dia ao longo dos dez dias que são a origem do título da obra, incluindo dois dias de tema livre), à excepção de um narrador (sempre o mesmo), que tem a liberdade de optar pelo tema que lhe apeteça. Cada conto é independente dos outros, embora possa haver referências e cruzamentos, já que o material literário assenta na tradição medieval e outras mais antigas e exóticas.

Os Contos da Cantuária utilizam uma estrutura semelhante no contexto duma viagem de peregrinos, com a notável diferença das estórias reflectirem a condição social dos narradores (o moleiro, o frade, o cavaleiro, a esposa, a freira, o mercador, etc), tanto na linguagem, como no tratamento dos temas. Alguns narradores, inclusive, exprimem antagonismos recíprocos ao longo das suas estórias.

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O mais interessante, para aquilo que neste blog se trata, está no modelo de curtas estórias que, na sua sucessão, exprimem a visão do autor sobre a vida social, a cultura e costumes, do seu tempo.

Sem pretensões moralizantes, edificantes ou condenatórias, ambas as obras celebram a expressão escrita em ‘língua vulgar’, em contraposição ao uso do Latim, falando das pessoas comuns e da vida quotidiana, polemizando, criticando ou elogiando através de diferentes vozes, o que as relativiza e afasta qualquer propósito de apresentar ‘uma’ verdade ao leitor.

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Graças à estrutura como os contos são apresentados, a sua leitura tem um valor acrescido à da leitura conto a conto, pois há uma história subjacente à recitação dos contos, e é essa história que permite outras leituras, outros horizontes muito além do que cada conto pode oferecer. Na verdade, esses horizontes nem são oferecidos a quem leia todos os contos, se prescindir da leitura do texto que os enquadra e lhes dá sequência.

RESSACA DO LIVRO incapacidade para começar um livro novo porque ainda estás vivendo no mundo do anterior livro

RESSACA DO LIVRO
incapacidade para começar um livro novo porque ainda estás vivendo no mundo do último livro

Quando a bela Musa se deixa seduzir por esta técnica, abre-se ao próprio escrevinhador um outro horizonte: o da evolução para outras estruturas narrativas, comummente conhecidas por ‘romance’ e ‘novela’.

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