Fazendo de pequenas estórias uma grande história

by escrever como?

Pequenas estórias podem ser justapostas até o tempo (e o enredo) as entrelaçar formando uma narrativa maior, muito mais complexa e apaixonante.

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Por exemplo, quando uma senhora de idade, viúva e só, espreita pelo óculo da porta e vê ‘(…) uma sombra. Como se estivesse a ponto de ir embora, como se não esperasse que alguém a abrisse [a porta]. O que pude ver foi um olho a meio da obscuridade e deu-me a impressão de ver um olho de cão triste. Talvez a abrisse por causa do olho, vejam vocês.

Essa senhora ainda não sabia na altura, mas relata-nos ela própria que aquele não foi um encontro banal: ‘O senhor de olho de cão triste, o dos olhos de cão triste -porque lhe vi os dois- e cara de mocho explicou-me coisas da alma que eu ignorava. Não podia dizer que fosse infeliz antes, porém aceitava as desgraças como uma consequência de ter vindo ao mundo. Agora vejo que a ignorância é uma maneira de ser feliz, não lhes parece?

Ora bem, se há quem saiba começar um relato e logo no início consegue dar-lhe uma espécie de conclusão e extrair-lhe significado, também há quem tenha de se esforçar para começar, fazendo disso questão: ‘Agora estou armando uma confusão, misturo tudo e não conto a minha estória. E hão-de sabê-la toda. Senão cansam-se de mim, e já começo a estar farta de gente que se canse de mim. Antes, quando não tinha recordações, tudo estava bem porque os velhos falavam e eu fingia escutá-los, mas quando me decidi a falar eu, as pessoas fogem-me e agora não sobe a casa nem o rapaz de Seu, porque diz que falo demais.

Neste caso, a palavra é a vela que permite à vida rumar para algum lado, mas também a âncora para que o passado se fixe e tenha, também, um sentido. Involuntariamente, porém, o uso da palavra pode ser vista como o hastear de bandeira pirata: arma reivindicativa, declaração de guerra (ou de princípios), acto de pilhagem (expressão de desejo)…

Daiquiri

Assim como há quem tenha necessidade de ter um ouvinte atento, capaz de o interromper no desfiar do monólogo quotidiano e matinal:

-Não compreendo bem isso que disse, senhor Duc.

–A que se refere?

 –A isso de que não gosta de gatos porque não os entende…

-A senhora sabe o que são os ciúmes, senhora Miralpeix?

 –Só os tive uma vez e não quero recorda-lo.

 –Pois é como uma ave de rapina que te vigia dia e noite. Algumas vezes dorme, outras vezes desperta e te rói por dentro. E a tua vontade de nada serve, não a podes deter.

 –E que têm que ver os gatos com os ciúmes?

 –É que, falando consigo, vêm-me à memória diversos acontecimentos. Aparentemente não têm relação, mas misturam-se dentro do meu cérebro. E não é que esses acontecimentos sejam cronológicos, antes me vêm sem ordem, nem conserto. Talvez seja por ter demasiadas horas livres, não sei. É má coisa, isso de não trabalhar. Antes via um gato e não lhe prestava atenção.

O relato tem uma função apaziguadora, é acerto de contas com a vida ou com algum facto passado. De qualquer forma, é uma tentativa de libertação e um acto de justificação.

-Este jogo de ligar os pontos não tem números -É para te ensinar que a vida não é justa

-Este jogo de ligar os pontos não tem números
-É para te ensinar que a vida não é justa

Há quem tendo igual necessidade de falar, falar, falar, não faça questão que o ouvinte participe, mas exija que esteja atento: ‘ (…) E nunca mais vim a sentir o que senti naquela noite de tempestade em que os raios feriam o céu. Só um sonho, uma quimera.

Mas, miúda, estás-me ouvindo ou adormeceste? Adormeceste, não é? E eu pago-te para que me escutes. E lembra-te disto: amanhã terás de me fazer a manicura.

Falar, divagar, efabular, como quem escreve um conto: a vida é sempre mais suportável quando se é capaz de sonhar ou de imaginar um enredo distinto.

Ou como disse a senhora Miralpeix, mais acima: ‘Agora vejo que a ignorância é uma maneira de ser feliz.’

De Kus, Bernardien Sternheim (2001), Marcel Oosterwijk

Quatro vidas que se cruzam, quatro vozes que se levantam tentando não se afogar no dia-a-dia. Uma história maior que se oferece ao leitor.

(todas as citações em itálico são retiradas do livro de Montserrat Roig L’òpera cotidiana 1983)
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