A verdade relativa

by escrever como?

Tal como se pode apreciar alguém pelo modo como trata os outros, inclusive os animais, o modo como o autor lida com as suas personagens diz tudo sobre o respeito que lhes tem e à inteligência do leitor.

Porém, o ponto de vista que proponho aqui não é pacífico: a autonomia da personagem em relação ao seu autor tem consequências e, eventualmente, pode não passar duma ilusão.

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Por outro lado, a qualidade literária duma obra não é, necessariamente, prejudicada ou salva pela autenticidade das suas personagens. Conforme repito ao longo destes posts, quase obsessivamente: vale tudo, em literatura. E nada é certo.

Mas como é estimulante ler e deparar-me com uma personagem familiar, ou seja, cujo estereótipo é bem conhecido e faz parte da minha mundividência, para ser, de seguida, surpreendido pelo modo como o autor lhe dá espaço para se afirmar e diferenciar, ainda que dentro do enquadramento geral do estereótipo.

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A este propósito referi, anteriormente, o tratamento dado na Ilíada aos dois heróis das duas partes em confronto na Guerra de Tróia:

-Aquiles, o arquétipo do Grande Guerreiro, um semi-deus capaz de prodígios em combate, amua e, por isso, deixa de cumprir suas obrigações para com os companheiros de armas, só voltando a assumi-las quando é atingido pessoalmente e é tomado pelo desejo de vingança, desrespeitando depois códigos de honra e de conduta elementares.

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-Heitor, um grande guerreiro que manifesta toda a sua humanidade ao exprimir o imenso amor pela mulher e pelos filhos, ao mesmo tempo que vive a responsabilidade de comandar um exército, de enfrentar o inimigo em campo de batalha e, assim, garantir a defesa da sua cidade.

Se o propósito de Homero é colocar o estereótipo do Grande Guerreiro em questão, levando-nos a reflectir sobre o valor destes dois modelos em confronto, não o faz dizendo explicitamente qual é o seu favorito, nem colocando o odioso encima de Aquiles. Este tem, aliás, oportunidade para se justificar recorrendo à argumentação que qualquer guerreiro da época poderia entender e partilhar.

E quando Aquiles exprime, em lágrimas e com raiva, suas próprias debilidades, torna-se autêntico, humano demasiado humano, sujeito a ser julgado nos seus actos e intenções, mas também a ser entendido e, eventualmente, a ver mitigado o juízo mais severo.

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O autor não se pronuncia, relata os ‘factos’, deixa às personagens a responsabilidade de se afirmar e justificar.

Ao leitor caberá o juízo. Jamais definitivo.

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