‘Pode alguém ser quem não é?’*

by escrever como?

*título duma canção de Sérgio Godinho

Um dos desafios da ficção literária está em retratar com verosimilhança a tortuosa mente humana.

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Muita obra literária lida com este tema de modo simples (por dicotomias certo-errado, bem-mal), ignorando contexto, história, e toda a gama de cinzentos entre o branco e o preto.

Este é um tópico fascinante para desenvolver ideias sobre a ‘autenticidade’ da personagem: figura idealizada (do angelical ao demoníaco), caricatura, arquétipo, real…o escrevinhador nem sempre tem noção de como condiciona a personagem às ideias preconcebidas. Ideias com que filtra o mundo em que vive e só através delas o ‘trabalha’ na escrita.

Se formos cínicos, e convém sê-lo também, podemos interrogar-nos se pode alguém escrever de outro modo.

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O autor deste blog é suficientemente cínico para isso, mas não é fatalista que chegue para se conformar à ideia de que estamos condenados à obscura caverna de que Platão falava.

Em toda a História da Literatura vemos exemplos notáveis de personagens que rompem com as categorias ‘normais’, ainda que o autor manifestamente tenha um quadro de valores e referências claramente oposto ao que a personagem exprime. O admirável é que o autor o faça permitindo à personagem estabelecer com o leitor um diálogo directo ou ‘tempo de antena’ para se explicar, eventualmente se justificar, sem se condenar.

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E não me refiro a inversões do sentido duma personagem, como a que, no sec.XIX, certos autores românticos desenvolveram e em que a clássica figura do Mal passa a ser apresentada como um libertador, o espírito livre, crítico e solidário para com a espécie humana. Neste caso, e neste tipo de inversões, mantém-se o condicionamento da idealização sobre a personagem.

Então, como pode o escrevinhador ‘ser justo’ para com uma personagem que, ele próprio, vê como sendo abjecta ou, pelo menos, condenável? 

Ai, magoei-me mesmo! Olha, está ficando inchado.

Ai, magoei-me mesmo!
Olha, está ficando inchado.

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