A voz sarcástica do narrador

by escrever como?

Camilo tem uma extensa galeria de personagens que, ostensivamente, lhe desagradam. Expõe-nos ao seu sarcasmo duro e certeiro, criando uma tipologia de homens e mulheres que se caracterizam pela grosseria e pela soberba, mas bem integrados na sociedade do seu tempo apesar das origens modestas. 

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Colocando-os em confronto com outros tipos, como o fidalgo sem instrução e sem préstimo, o pretensioso com formação académica, o padre sem valores espirituais preocupado em amealhar valores materiais, as famílias ricas que vivem de rendas e nada produzem, Camilo salva-os (e salva-se a ele, enquanto autor) do retrato estereotipado do novo-rico, reconhecendo-lhes carácter, vontade de trabalhar e progredir socialmente, a ambição de ver os filhos melhor preparados, senão pela educação, pelo casamento.

Se lhes denuncia a falta de escrúpulos, a brutalidade no trato com os dependentes e ‘inferiores’, a cobiça e a avareza, Camilo só verdadeiramente os distingue de outros tipos sociais, geralmente mais instruídos e com trato mais polido, pela franqueza rude e pela energia com que se entregam ao trabalho. 

O resultado é ambíguo para o leitor: por um lado, ri-se da caricatura a traço grosso, mas não deixa de reconhecer no retratado um motor de progresso e de democratização social, por muito incipiente que seja sua ideologia política e ciência económica. Sem com isso deixar de lhe observar arcaísmos diversos e variados.

Assim, as personagens camilianas parecem autênticas, verosímeis.

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E, por isso, são fascinantes século e meio depois, além de serem ainda reconhecíveis em muita gente nossa contemporânea.

No caso de Camilo, muitas vezes a narração começa como n’ A Viúva do Enforcado: ‘(…) nós, porém, diremos de um ourives deste século, ali nascido (…)’ e a voz do narrador é indissociável do próprio autor, o qual vai dando a suas achegas e comentários com um ‘a mim parece-me que o escrúpulo é a chave que abre a porta por onde a inocência há-de escapar-se, tarde ou cedo‘ ou ‘não me atrevo a decidir que estes esposos se amassem até ao delírio‘, ou, ainda, provocando o próprio leitor ‘Quem não tiver alma para compreender isto, não leia novelas da natureza destas. Entenda-se com o meu ilustrado amigo o sr.Ferreira Lapa e peça-lhe que lhe prelecione acerca dos melhores adubos, para que o seu engenho se não vá deste mundo sem alguma cultura‘.

Piratas do Tietê

São muitos os riscos para quem pretenda escrever ‘misturando’ ideias pessoais no desenvolvimento da narrativa, mais ainda quando tem como ‘alvo’ personagens-tipo e propósitos de crítica social.

E quando mete o ‘espirito’, para usar a expressão que o próprio Camilo utilizou em Gracejos que matam, onde alerta o leitor para a variedade de humor de ‘um folião que desbragava a pena e desembestava asselvajadamente o insulto‘, o sarcasmo perde qualidade literária e satírica.

N’quel N‡usea


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