A Terceira Grande Questão Existencial

by escrever como?

Uma das ilusões da arte fotográfica, desde os seus primórdios, é a da reprodução exacta, real, daquilo que mostra.

Mesmo hoje, quando essa ilusão já foi explicada de mil milhões de maneiras, há quem só desconfie que esta ou aquela foto está, eventualmente, retocada pelo Photoshop. Porque, não estando, a verdade da fotografia será inquestionável.

Daiquiri

Com as mesmas artes de ilusionista, figuras públicas de todos os tempos sempre tiveram a ambição de deixar para a posteridade a sua versão de si mesmos e do que fizeram, com a ingenuidade suplementar de querer convencer que essa verdade é ‘a verdade’, até porque são eles (e quem melhor do que o próprio?) a contar como tudo aconteceu.

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Autobiografias e ‘biografia autorizadas’ pertencem a esse inestimável património literário onde a ficção e a realidade histórica se enovelam para desespero dos historiadores e delícia dos demagogos.

Qualquer escrevinhador com um mínimo de bom senso deveria saber isso, senão por experiência de vida, pelo menos por ter passado a adolescência a ler muitos romances históricos.

E deve, por isso, colocar-se a ‘Terceira Grande Questão Existencial’: Serei capaz de escrever sobre uma realidade que não vivi, sobre pessoas que existiram realmente, e desenvolver um enredo ficcionado e verosímil, sem a pretensão de fazer história, mas a de escrever uma boa estória?’

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Entre os muitos escolhos no caminho do escrevinhador que se dedique a responder a esta questão, está aquele que vimos a tratar nos últimos posts: o da autonomia da personagem, o da sua liberdade para se afirmar-defender-reclamar inocência.

Ou seja, ao escrevinhador coloca-se o desafio de ‘retratar com verosimilhança a tortuosa mente humana’

Que é uma forma de responder à tremenda questão: ‘como pode o escrevinhador ‘ser justo’ para com uma personagem que, ele próprio, vê como sendo abjecta ou, pelo menos, condenável?’ 

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-Quando tinha princípios não tinha os meios, e agora que por fim tenho os meios, careço de princípios.

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