‘Leitura não recomendada para quem só lê a preto-e-branco’ *

by escrever como?

* sugestão de aviso para afixar em certos livros

‘Entrar na mente’ do criminoso é um tópico da literatura policial, desafiando as regras da ‘normalidade’, do socialmente aceitável. Se o autor se distancia suficientemente, dando espaço à personagem para se revelar pelas suas próprias palavras (que é uma noção complexa e nada pacífica), é natural que choque o leitor habituado a uma separação clara entre o Bem e o Mal, entre o herói e o vilão, entre a boa menina e a má menina boa.

Prosseguindo com o exemplo do post anterior,  podemos ver como Vargas Llosa apresenta a sua versão da ‘tortuosa mente humana’, criando proximidade entre a personagem e o leitor. Neste caso, a personagem é um flagrante expoente da mente tortuosa.

ange11032008

Ao longo do capítulo VIII do livro, o ditador Trujillo lida com diferentes assuntos e distintos subordinados, saltitando entre assuntos ‘de Estado’, susceptibilidades, apetites ou doenças, permitindo ao leitor acompanha-lo sem filtros. E, nesse processo ‘mental’, o leitor assiste ao diálogo de Trujillo com figuras do topo da hierarquia do Estado e das Forças Armadas, ao mesmo tempo que lhe segue os pensamentos, conhece suas intenções e partilha suas críticas a respeito deste ou daquele indivíduo.

Mauricio Levy2

Inevitavelmente, o leitor acaba por também partilhar o juízo daquele a respeito de seus interlocutores e de outros, reconhecendo a deprimente constatação de que todos estes ‘homens fortes’ sempre se rodeiam de pessoas fracas, que desprezam e humilham com gosto.

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A ilação é evidente para qualquer pessoa, mas compete ao leitor o salto lógico: o autor recusa-se a fazer esse trabalho. Por respeito à inteligência do leitor? Provavelmente. E por respeito à ‘verdade’ da personagem, suponho eu.

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