99% transpiração?! É mesmo?

by escrever como?

Há um lugar-comum que diz, a propósito da criação artística, ‘que é 1% de inspiração e 99% de transpiração’, ou coisa parecida. Nunca simpatizei com esta repartição, mas também nunca fui dado ao cálculo aritmético ou estatístico, porém devo reconhecer que algo terá a ver com o número de horas, dias, meses, para desenvolver qualquer projecto literário: passar da ideia ao texto definitivo é um trabalho laborioso, sujeito a revisões e ajustamentos.

E aqui está, a meu ver, a chave para a compreensão do ‘bloqueio do autor’: a incapacidade, queira-deus-que-momentânea, para se focar no trabalho. Porque é de trabalho que se trata, se existe a pretensão de seduzir o leitor, de comunicar, de cultivar um estilo, de desenvolver o potencial duma situação, e outras tantas coisas mais.

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista: -Passarás fome! Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista: -Trabalha!

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista:
-Passarás fome!
Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista:
-Trabalha!

Assim sendo, é fácil de entender a miríade de acontecimentos diários que podem interferir na rotina do escrevinhador, para não falar da sua própria tendência à procrastinação, ao desânimo, a deixar-se levar pela espuma dos dias, ou a dificuldade em conciliar a disciplina da escrita com as exigências da vida familiar, profissional, inclusive com problemas de saúde.

Para cada exemplo que justifique o bloqueio, convém lembrar exemplos de escritores que, passando pelo mesmo, souberam ultrapassar o obstáculo e prosseguir até ao fim com o projecto. Por uma questão de higiene mental e pragmatismo, o que o escrevinhador bloqueado menos necessita é de complacência ou piedade.

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E não conheço melhor exemplo de quem escrevesse sobre as dificuldades pessoais e as apresentasse como qualidades que favoreceram a escrita e a reflexão, como escreveu Nietzsche a seu respeito e, concretamente a respeito da escrita do livro Aurora:

A completa claridade e serenidade, e até exuberância de espírito que a referida obra reflecte, harmonizam-se em mim não só com a mais profunda debilidade fisiológica, mas ainda com o agudo sentido do sofrimento. No meio do martírio que me causavam ininterruptas dores de cabeça durante três dias, com vómitos violentos, mantinha uma lucidez dialéctica excepcional e meditava friamente os problemas para os quais em melhores condições de saúde me teria achado desprovido de subtileza e de frieza, sem a indispensável audácia do alpinista.’ (in Ecce Homo, ed.Guimarães e Cª, trad. José Marinho)

E, mais à frente, dá as seguintes dicas para um ‘pensamento sagaz’: ‘À escolha da alimentação, à escolha do clima e do sítio adequado para viver – uma terceira se acrescenta, na qual também cumpre evitar todo o erro, e é essa a escolha da forma de divertimento’.

Ou seja, está na mão do escrevinhador reagir e dar solução ao bloqueio. A alternativa é resignar-se e aguardar por uma madrugada promissora, ou que apareça um anjo-editor que o leve ao colo para um desses paraísos sobre a Terra onde possa dedicar-se infatigavelmente à escrita.

"-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?"

“-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?”

Sem esquecer, contudo, que a inspiração é fundamental e que o segredo está em seduzir novamente, e sempre, a bela Musa. Ou, como diz alguém que entende destas coisas literárias e afins:

Si lo que estás haciendo te importa de veras, si crees en él, si estás convencido de que es una buena historia, no hay nada que te interese más en el mundo y te sientas a escribir porque es lo único que quieres hacer, aunque te esté esperando Sofía Loren.

Para mí, esta es la clave definitiva para saber qué es lo que estoy haciendo: si me da flojera sentarme a escribir, es mejor olvidarse de eso y esperar a que aparezca una historia mejor.” (Gabriel Garcia Marquez em carta a Plinio Apuleyo Mendoza )

quatro obstáculos para quem escreve um carrinho de bebé na sala abelhas no quarto nada no banco poltergeist na casa

quatro obstáculos para quem escreve:
um carrinho de bebé na sala
abelhas no quarto
nada no banco
poltergeist na casa

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