O lado oculto do texto

by escrever como?

Os contos de fadas tradicionais, nas versões antigas, não escondem a face sombria da natureza humana, como a maldade, a frieza, a mentira, nem a da existência, como a velhice, a doença e a morte (na verdade, vão muito além disso: são explícitas as violações, o abuso infantil, o incesto, o canibalismo, o abandono/venda dos filhos…).

Compilados através da recolha oral ou de textos clássicos, cedo ganharam o estatuto de “literatura infantil”, uma espécie de compromisso entre o desprezo para com as origens populares e a grande divulgação no ambiente familiar. As personagens são facilmente percebidas como boas e más, permitindo a rápida identificação por parte do leitor (ou ouvinte). No conflito entre estes dois pólos surge a tensão, passado por uma longa fase em que os maus levam vantagem e os bons sofrem horrores, resolvendo-se tudo no ‘final feliz’ característico.

A detail from the Smithfield Decretals, southern France (probably Toulouse)

Estereótipo, portanto, mas eficaz por duas razões: são os contos originais e cumprem uma ‘função iniciática’ entre a audiência infantil, aquela que não tem ainda idade para passar aos aspectos mais complexos da personalidade, como o é a ambiguidade de personagens semelhantes às pessoas que somos. A criança que tenha a felicidade de ouvir um adulto contar estas estórias com alguma arte e sensibilidade, e depois as leia, acompanhada ou não, não só satisfaz a sua natural propensão para a fantasia criadora, como reconhece os dilemas e receios típicos da sua idade que os contos de fadas abordam de modo simplificado, mas directo.

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Numa obra conhecida, o psicanalista Bruno Bettelheim desenvolve detalhadamente o efeito terapêutico dos contos tradicionais como o Capuchinho Vermelho na psique infantil, salientando a importância de se respeitar sua estrutura, caracterizações, linguagem, em vez de se proceder à ‘limpeza sanitária’ dos aspectos mórbidos de que essas estórias são bem famosas:

A história de fadas aborda a criança tal como ela é numa altura bem determinada da sua vida e tal como ficaria sem o auxílio da história: convencida de que é desdenhada, rejeitada, degradada. (…) Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos_como têm de ser, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas. Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele é que a criança pode aproveitar plenamente do que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo.‘ (in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, ed.Bertrand 1984, trad.Carlos Humberto da Silva)

Não há nenhum Anjo da Morte.  Só há o Pato da Morte. No final, ele bamboleia e vem reclamar a tua alma. Ele só inventou o Anjo da Morte para não te sentires tão estúpido por seres morto por um pato. Mas vai ser este tipo, realmente. Por favor, não fiquem todos furiosos por causa disto. As coisas são como são.

1.Não há nenhum Anjo da Morte.
2.Só há o Pato da Morte. 3.No final, ele bamboleia e vem reclamar a tua alma.
4.Só se inventou o Anjo da Morte para não te sentires tão estúpido por seres morto por um pato.
5.Mas vai ser este tipo, realmente.
6.Por favor, não fiquem todos furiosos por causa disto.
As coisas são como são.

Isto dá-nos uma pista sobre as razões pelas quais tantos adultos se sentem ‘agarrados’ por um livro, um poema, um autor: o desequilíbrio, ou tensão, da narrativa actua para lá do que temos consciência, e muito para lá do que possam ser as intenções do autor; principalmente quando toca dum modo subtil (como são, particularmente, os efeitos poéticos), levando o leitor a sofrer uma vertigem, uma possessão, profunda melancolia e recolhimento ou excitação e vontade de exteriorização.

‘Mistérios’ do culto literário difíceis de entender para quem não pratique os ritos…

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