Órfãos da ‘originalidade’

by escrever como?

Repetindo um anseio que ouço com alguma frequência, alguém me pede dicas para poder escrever sem cair nos famigerados estereótipos e produzir textos com genuína originalidade. Tudo desejos muito louváveis, pecando, no entanto, por serem algo estereotipados.

-Quero que estudes estes sites a ver se consegues tornar o meu site mais original.

-Quero que estudes estes sites a ver se consegues tornar o meu site mais original.

Por deficiência minha, dei a entender que o estereótipo é algo a evitar, esquecendo-me de acrescentar que é uma quase-inevitabilidade. Na realidade, os estereótipos têm grande utilidade ao poupar recursos e tempo para transmitir conteúdos, já que são facilmente compreensíveis por reproduzirem esquemas, tipos, valores, dos quais a generalidade das pessoas reconhecem. O seu oposto será uma escrita que tenha uma perspectiva distinta do estereótipo e, além do mais, subentenda de modo mais ou menos explícito, uma crítica ao modelo estereotipado.

"Qual é?!-diz para procurarmos a nossa originalidade, e depois marca

“Qual é?! Primeiro diz para mostrarmos originalidade, e depois marca erros no meu texto!”

O que leva à questão da ‘originalidade’, que significa ‘regresso às origens’, não necessariamente as do escrevinhador, mas as da escrita, do tema, do enredo. E que origens podem ser essas? Ora, este é que é o eterno problema: o de sermos herdeiros, utentes e artesãos, de técnicas e saberes que têm uma história, uma evolução com protagonistas, dilemas e conflitos, e de que somos praticamente ignorantes. Ou seja, que sabemos nós sobre as ‘origens’, escrevinhadores com a pretensão da originalidade?

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“Tenho de recordar-te de que tenho uma imensa legião de seguidores na internet?”

Como alguém disse (e escreveu), tudo já foi inventado ou tudo já foi dito em termos literários. Sem levar esta ideia à letra, creio que dificilmente o escrevinhador terá noção do que está a escrever sem a bagagem literária que o elucide minimamente do quanto é devedor de toda uma tradição literária que absorveu ao longo da vida, mesmo sem ter de pegar num único livro. 

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