Da palavra aos actos e o fascínio pelo silêncio

by escrever como?

A escrita não precisa senão dum vocabulário mínimo e duma módica obediência às regras gramaticais para se fazer entender. Escrevem-se livros para ir ao encontro dos gostos de certa leitura, lêem-se livros que aparentem ir ao encontro desses gostos.

E para não haver dúvidas, quem tem recursos lança campanhas que ajudam os gostos a conformarem-se à oferta, ao mesmo tempo que promove ofertas que correspondam aos gostos dominantes. De certo modo, é o que conheço de mais próximo da quadratura do círculo. Como ilustração rápida do que pretendo dizer, deixo aqui a ligação para um dos recentes posts do blog Malomil que explica isto muito melhor.

13319333

Sem ser meu propósito tratar aqui das seiscentas dúzias de fórmulas para escrever um best-seller, detenho-me com vagar e deleite naquela prosa e poesia que têm uma relação física com a palavra, sem descurar as múltiplas possibilidades do sentido.

bartak

Que é outro modo de dizer: o signo sensual e significante, pleno de significados. Assim, como pregava Vieira:

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras.

Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demónios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador.

O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras?

— Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras!’

(in Sermão da Sexagésima parte IV do Padre António Vieira)

De poucas palavras nasceram muitas obras‘, ou como diz Luisa Dacosta, citada no anterior post: ‘Essa é a dificuldade, porque [a palavra] está entre aquelas [palavras] que gastamos todos os dias, na vulgaridade da fala’. Escrever como quem economiza vocábulos e frases? Sim, pode ser, embora goste mais da ideia de ‘burilar o estilo’, sem cair em maneirismos e outros pedantismos.

'Au, au, au

“Au, au, au – mas estou só a parafrasear.”

E como expoente máximo dessa ideia, Eugénio de Andrade: 

Quando a ternura/parece já do seu ofício fatigada,/e o sono, a mais incerta barca, /inda demora,/quando azuis irrompem/os teus olhos/e procuram/nos meus navegação segura,/é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas,/pelo silêncio fascinadas.

(O Silêncio in Obscuro Domínio)

Like-This

Não. Usa-a para falar. Assim.

Escrever como silêncio e como acto. Ainda querem que explique melhor a ‘relação física com a palavra’?!

Anúncios