O diabo na biblioteca

by escrever como?

O regresso à casa da infância é, geralmente, uma viagem excitante que redunda em frustração. Como a dar razão ao ditado: não voltes a um lugar onde foste felizAssim, também os livros sofrem o feitiço de se tornarem autênticos sapos, como se ao longo dos anos arrumados na estante ou guardados numa cave, o texto fermentasse, perdendo a frescura, a força, o mistério e a paixão. Talvez um qualquer gnomo maligno reescreva à sua maneira os livros que maravilharam leitores.

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As bibliotecas da infância e da juventude, principalmente, são assombradas pelo decepcionante diabito que estraga o prazer do reencontro: folheia-se um livro fascinante que marcou o imaginário e, eventualmente, deu novo sentido aos anseios e metas numa já longínqua idade (não interessa se há seis, se há sessenta e seis anos), mas em vez de reviver esse fascínio, descobrem-se inúmeros defeitos, imensas fórmulas estereotipadas, insípidas caracterizações. Ou seja, os ‘tesouros’ redescobertos da infância e da juventude arriscam-se a ser meras contas de vidro e moedas de latão.

Também na vida adulta surgem autênticas pérolas que, ao fim de anos, envergonham pela óbvia banalidade do artifício, do efeito rebuscado e oco, da ideia estafada.

O escrevinhador, no ‘acto da criação’, deveria ter isto presente: o texto é orgânico, tem vida própria, escapa ao criador por força do livre-arbítrio. Mesmo que encerrado num baú, o texto poderá surgir à luz do dia, mas numa outra época, até num outro mundo. Portanto, a quem se dirige este texto que, aqui e agora, escrevo? pode ser uma questão ilusória, mas útil.

A Tentação de Santo Antão (detalhe), Hieronymus Bosch

Quando me ponho a fantasiar a imagem de um leitor perfeito, sempre ela se configura um prodígio de coragem e de curiosidade, e, além disso, de agilidade astuciosa, um prudente aventureiro e um descobridor nato.’ (in Ecce Homo de Frederico Nietzche, trad.José Marinho, ed.Guimarães & Cª 1973)

Evidentemente, o escrevinhador pode recusar a comunicação, fiel à ideia de construir um mundo dentro da sua torre de marfim. Pode ser como diz Bernardo Soares: ‘…o verdadeiro destino nobre é o do escritor que não se publica. Não digo que não escreva, porque esse não é escritor. Digo do que por natureza escreve, e por condição espiritual não oferece o que escreve. (…) Que têm os outros com o universo que há em mim?’ *

Não podes viver e escrever ao mesmo tempo.

Não podes viver e escrever ao mesmo tempo.

Mesmo assim, arrisca-se a sofrer as mesmas diabruras do gnomo maligno que desarruma, não os livros, mas os próprios textos no interior dos livros. Como o próprio Bernardo Soares se surpreende ao descobrir:

‘A quem me substituí dentro de mim? (…) Mas a que assisto quando me leio como a um estranho? A que beira estou se me vejo no fundo? Outras vezes encontro trechos que me não lembro de ter escrito -o que é pouco para pasmar-, mas que nem me lembro de poder ter escrito -o que me apavora. Certas frases são de outra mentalidade. É como se encontrasse um retrato antigo, sem dúvida meu, com uma estatura diferente, com umas feições incógnitas -mas indiscutivelmente meu, pavorosamente eu.’ *

* excertos do Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed.Assírio e Alvim 2001)

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