Levando o desafio à letra

by escrever como?

Com o tempo, muitos leitores privilegiam a releitura à leitura de novos títulos. Perda de tempo? Depende do que relerem. Se tiveram a oportunidade de ler boa literatura russa quando eram mais novos, provavelmente não o fizeram com o tempo (nem com as melhores traduções, se calhar) que os títulos e os autores exigem.

Além disso, a releitura pode acontecer espontaneamente em qualquer altura da vida, seja por paixão, seja por haver consciência dum mal-entendido a resolver entre o leitor e o texto. Aí podem acontecer surpresas boas, más e outras meramente decepcionantes. Mas quem mudou: o texto ou o olhar de quem lê?

-Pareces muito mais magro. -Obrigado, fiz a extração do apendice...

-Pareces muito mais magro!
-Obrigado! Fiz a extração do apêndice…

Reflicta sobre isto o escrevinhador: há livros que são amor à primeira vista, ou nem tanto assim, às vezes muito pelo contrário, que têm o condão de propiciar descobertas de novos sentidos, uma insuspeitada profundidade, um poder de contaminação cultural até então desconhecido, ao serem relidos. Mudou o texto ou mudou a percepção do leitor?

-Não acredites em nada disso. Ele é um optometrista, ele simplesmente pensa que "visionário" soa melhor.

“-Não acredites em nada disso. Ele é um optometrista, ele simplesmente pensa que ‘visionário’ soa melhor.”

Antigamente, o custo das ‘folhas’ dos livros (pergaminhos, na verdade) era de tal modo alto que se rasuravam os textos, eventualmente desactualizados ou pouco católicos, para escrever de novo. Actualmente é possível redescobrir fragmentos de textos rasurados sob o texto visível em certos manuscritos (na pintura acontece o mesmo), oferecendo-se novas interpretações, novo entendimento, senão dos textos, dos homens e da cultura.

De algum modo, a releitura permite a apreensão de conteúdos que escaparam ao leitor de vezes anteriores, ou até se lhe abre um entendimento distinto das intenções do próprio autor. Há autores e livros que nos fazem sentir especialmente inteligentes, perspicazes, sensíveis, tomados pela vertigem dum novo horizonte ou pela serenidade duma ‘verdade’ que sempre soubemos, mas não sabíamos expressar. Porém, onde se esconde tudo isso: sob o texto ou para lá dele?

"Não cheguei aqui tentando agradar."

“Não cheguei aqui tentando agradar.”

Eu defino um “clássico”, seja na literatura, na música, nas artes ou na filosofia, como uma forma significante que nos “lê”. Lê-nos mais do que nós o lemos (ouvimos, percepcionamos). Não há nada de paradoxal,muito menos de místico, nesta definição.

De cada vez que entramos nele, o clássico questiona-nos. Desafia os recursos da nossa consciência e do nosso intelecto, da mente e do corpo (grande parte da resposta estética primária, e até da intelectual, é física).’ *

Escrever como provocação? O texto actua sobre o leitor, vai ao seu encontro, obrigando-o a reagir, a mudar de perspectiva, a reavaliar. Ou a afastar-se, pousando o livro; neste caso e no decurso do tempo, ou graças ao auxílio esclarecedor de alguém, o desafio permanece e a sua impertinência aparente obriga o leitor a defrontar novamente o texto.

Leitor talvez mais maduro, talvez mais exigente consigo mesmo, talvez não suportando escrevinhadores incapazes de arranhar a superfície e ir além do óbvio:  O luar através dos altos ramos,/Dizem os poetas todos que ele é mais/Que o luar através dos altos ramos. / Mas para mim, que não sei o que penso,/O que o luar através dos altos ramos/É, além de ser/O luar através dos altos ramos,/É não ser mais/ que o luar através dos altos ramos. (poema XXXV in O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, ed.Assírio e Alvim 2001)

-Precisamos de mais opiniões divergentes. -Concordo a 100%. -

-Precisamos de mais opiniões divergentes.
-Concordamos a 100%.
-Certamente, senhor.

Assim dito, aos mais precipitados pode parecer a apologia dos textos difíceis, herméticos, de palavreado erudito e conceitos intragáveis. Muito pelo contrário, o autor deste blog peca, entre muitos outros defeitos, por insistir nas artes com que o escrevinhador deve seduzir o seu leitor. Excluindo, porém, qualquer facilidade por temor à preguiça do leitor em ultrapassar suas próprias limitações. Se é para seduzir mesmo, convém que seja por paixão e para o próprio prazer.

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O poder do clássico sobre nós, as exigências e perguntas que nos faz, são simultaneamente as mais subtis e as mais urgentes.’ *

* citações de Errata: revisões de uma vida de George Steiner ed.Relógio d’Água , tradução de Margarida Vale de Gato, 2001

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