A louca da casa

by escrever como?

Variando com as épocas e as culturas, o escrevinhador podia sentir-se possuído, ferido ou recebido um dom de uma qualquer entidade divina, perturbado ou assombrado pelo(s) seu (s) demónio(s), o qual podia ser verde se bebesse absinto, ou visitar uma qualquer Lucy num céu de diamantes. absinthe_drinker Ou idealizar alguém, uma suposta Beatriz, por exemplo, colocando-se ao seu serviço e imortalizando-a em retribuição pela inspiração: ‘E ainda que a sua imagem, que comigo continuadamente estava, encorajasse Amor a assenhorar-se de mim, era todavia  de tão nobre virtude, que nunca deixou que Amor me regesse sem o fiel conselho da razão, naquelas cousas em que tal conselho fosse útil de ouvir. (…) Pensando no que me tinha aparecido, me propus de fazê-lo escutar por muitos que eram famosos trovadores daquele tempo: e como a arte de dizer palavras por rimas fosse cousa que já por mim mesmo tivesse praticado, me propus fazer um soneto’. (in A Vita Nuova de Dante Alighieri, trad.Vasco Graça Moura Bertrand Editora 2001)

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Pode ser esta a maneira mais trivial de exprimir a ‘divina inspiração’ do escrevinhador, aquela que nenhum apaixonado(a) escapou ao alinhar dois pares de versos, pelo menos. Mas também é, certamente, prolífica: Dante relata que, para esconder a identidade da verdadeira dona do seu coração, escrevia poemas a outras ‘belas damas da cidade‘.

-Estás linda hoje, querida. -Eu estou aqui.

-Hoje estás muito linda, querida…
-Eu estou aqui.

O certo é que a laicização das sociedades, o individualismo, a massificação da cultura, reforçaram a componente ‘genial’ do escrevinhador, passando a ser ele próprio o ‘criador’. Motivos de inspiração não lhe faltam: a sociedade em geral, as pessoas em concreto, o seu insondável, imenso, tortuoso ego, o tempo perdido, a espuma dos dias, Godot, o que se quiser.

Mensagem Inspiradora Rejeitada #408 -A vida será melhor quando ganhares a lotaria!

Mensagem Inspiradora Rejeitada #408
-A vida será melhor quando ganhares a lotaria!

Mas permanece sempre um Outro de quem o escrevinhador teme perder o contacto, a inspiração, o beijo inspirador. Depressivo, satírico, bem-humorado, zangado com o mundo, sofrendo todas as dores alheias, rigorosamente concreto e materialista, absolutamente poético ou espiritual, o texto bafejado pela aragem agitada pela ‘louca da casa’ tem vigor para disseminar-se num processo epidémico característico, hajam condições atmosféricas para que saia da gaveta ou do baú.

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Mas que estou para aqui a dizer?! No sec.XXI a auto-edição e a edição de e-books já não permitem alimentar a aura romântica dos livros por publicar. Na verdade, as ‘condições atmosféricas’, a ‘luz do dia’, estafadas figuras de retórica para exprimir a oportunidade de se dar a conhecer literáriamente, têm a ver com a crítica especializada e os espaços de divulgação (virtuais ou não). Mas isso são outros contos…

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