Vozes do Outro-Mundo

by escrever como?

Por vezes, o escrevinhador é assombrado por fantasmagorias apelando a uma memória colectiva, tanto reclamando o ajuste de contas com o Passado, como a celebração dum Futuro de outra época, ainda que negado e destruído, e que, de algum modo, preparou o Presente.

Pintura de Cândido Portinari

Pintura de Cândido Portinari

O apelo do passado remoto de outras vidas pode incentivar à pesquisa de documentos e relatos, resultando num estudo onde janelas de luz se abrem para novos factos e outras interpretações.

Ou assim o escrevinhador pressente, sofrendo o abalo duma revelação:

O passado não abre a sua porta/ e não pode entender a nossa pena./ Mas, nos campos sem fim que o sonho corta, / vejo uma forma no ar subir serena:/ vaga forma, do tempo desprendida./ É a mão do Alferes, que de longe acena. /Eloqüência da simples despedida:/ “Adeus! que trabalhar vou para todos!…” (Esse adeus estremece a minha vida.) *

Assim como também tem vezes em que o escrevinhador vai atrás duma história e é possuído por outra, que se impõe pela urgência e passa a fazer parte dele mesmo:

Quando, há cerca de 15 anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu das recordações que, mais do que a sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas, e todo o presente emudeceu, como platéia humilde (…)

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Pintura de A.Almeida

Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores (…). Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (…). Então, dos grandes edifícios, um apelo irresistível me atraía (…)

Deixei Ouro Preto e seguiram comigo todos esses fantasmas. Seguiram outros (…).’ **

A escrita deixa de ser mero ofício ou prazer artístico, torna-se paixão. Escrever como quem dá voz a vozes de outro tempo, outro mundo.

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* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

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