O escritor mediúnico

by escrever como?

Estranha condição de médium esta, que Cecília Meireles assume quando diz que ’Tudo me chama: a porta, a escada, os muros,/ as lajes sobre mortos ainda vivos,/ dos seus próprios assuntos inseguros’ *, sentindo-se impelida a dar voz às vozes que reclamam atenção.

Já não são deuses, nem a loucura com que inspiram simples mortais: as vozes chegam de gente real, porém desaparecida.

Pintura de Bernardo Cid

Pintura de Bernardo Cid

Muitas coisas se desprendem e perdem – ou parecem desprendidas e perdidas – ilimitado tempo; mas outras vêm, como heranças intactas, de geração em geração, caminhando conosco, vivas para sempre, vivas e actuantes, e não lhes podemos escapar, e sentimos que não lhes podemos resistir.’**

E à assombração das vozes junta-se o dever de lhes dar forma e fazer-lhes justiça:’(…) porque se impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, se confessavam, que exigiam quase, o registro da sua história.’**

Pintura de Raul Mendes da Silva

Pintura de Raul Mendes da Silva

Todavia, o registo vai mais além dos autos de julgamento, das inquirições e doutros documentos históricos. Assim, Cecília dá forma literária às vozes, assumindo a condição mediúnica, sim, mas com critério e AUTORidade.

* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

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