Vozes e letras

by escrever como?

E assim me acenam por todos os lados./ Porque a voz que tiveram ficou presa/ na sentença dos homens e dos fados.’*

Marilia 1

A liberdade poética na transcrição das vozes que Cecília Meireles ‘ouve’ junto às paredes dos velhos edifícios, ela assume ter uma dupla função: a de respeitar ‘determinadas verdades’ e arrastar o leitor para dentro do enredo:

Nesse ponto descobrem-se as distâncias que separam o registro histórico da invenção poética: o primeiro fixa determinadas verdades que servem à explicação dos fatos; a segunda, porém, anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos, mas obriga o leitor a participar intensamente deles (…).**

Cecilia Meireles por Viera da Silva

Cecília Meireles por Vieira da Silva

Porém, ela reclama para si o discernimento para encontrar a forma apropriada pela qual as vozes possam exprimir-se plenamente, e é através da forma livre do romanceiro que se desenvolve uma narrativa a diversas vozes, sem censura, nem juízo.

‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’**

Nem anónimas, nem acusadoras, as vozes manifestam seus anseios e perplexidades. Assim como a bela e doce Marília, que de musa inspiradora acaba por se tornar numa sempre-noiva, aguardando o que já deixou de crer faz muito tempo:

‘Bem que o coração dizia/-coração desventurado-/”Talvez se tenha esquecido…”/”Talvez se tenha casado…”/ Seu lábio, porém, gemia:/ “Só se estivesse alienado!” ‘

pintura de Fernando Baril

pintura de Fernando Baril

* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

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