O Fim do Tempo

by escrever como?

Último mês do calendario, final do ano, Dezembro suscita reflexões, alegorias e narrativas sobre temas densos como a finitude, a velhice e a morte (e eu já aligeiro o assunto evitando maiúsculas).

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FIM
“Ele era um grande escritor”.

São temas recorrentes suscitados pelas longas, geladas noites, pelos dias curtos e cinzentos, pelas festividades que apelam aos laços familiares e recordam aqueles que ‘o tempo levou’. Como no famoso conto A Christmas Carol de Charles Dickens, a época é propícia a balanços existênciais e ao correspondente saldar de contas (enquanto é tempo…).

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Aí coloca-se o escrevinhador num terreno traiçoeiro: o de lidar temas que mexem com memórias antigas e questionam sua identidade. Frequentemente, ele tropeça e estatela-se numa escrita lamecha, confusa, confessional.

Lamecha porque escorrem lágrimas e ecoam suspiros a cada evocação dum ente querido da infância ou dos momentos irrepetíveis; confuso porque são as emoções que dominam a composição, prejudicando forma e conteúdo; confessional porque reduz-se ao desabafo. 

a Arte da Conversação lição 7: se em algum momento ao longo da conversação pensares: ‘-Estarei a falar demasiado sobre mim?’ então a resposta é ‘SIM’.

Os temas podem ser expressos de modo azedo, melancólico, desesperado, saudosista, amargo, pessimista, e são numerosos os exemplos de grandes textos literários assim escritos. A questão não é essa.

Como em tudo o mais (nisto da escrita, claro está), o escrevinhador deve ter a preocupação de comunicar, desenvolvendo os temas de modo a envolver o leitor. E é aqui que volto a lembrar o discurso de Cecília Meireles citado num post anterior: ‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’

Dito isto, desista o escrevinhador de procurar álibis para cometer o mais hediondo dos crimes literários: matar o leitor de tédio, por desleixo da capacidade autocrítica.

"A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo."

“A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo.”

Ou dele se poderá dizer o que alguém disse do Dantas: O Dantas é a meta da decadência mental!/E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!/E ainda há quem lhe estenda a mão!/E quem lhe lave a roupa!/E quem tenha dó do Dantas!/E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (in Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros)

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