Transbordando de amor

by escrever como?

O Natal (um dos três temas fortes de Dezembro) é época em que os ‘bons sentimentos’ são extensíveis a toda a gente, de modo indiscriminado e despudorado.

No registo literário, a efusão de afectos para com o mundo exprime-se, na maioria das vezes, através de poemas e, menos frequentemente, por contos. Aparentemente, obras de maior fôlego devem sufocar o próprio escrevinhador, pois só tenho ideia de encontrá-las nas secções de ‘auto-ajuda’ ou ‘espiritualidades’ das melhores livrarias, secções que pertencem a um outro domínio que não o estritamente literário.

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Desde (quase) sempre existe literatura que aborda o tema do ‘amor’ visto sob as mais variadas perspectivas, mas aquela que trago aqui é relativamente recente: a expressão dum amor incondicional, impessoal (porque dirigido a todos e a tudo),que pode facilmente centrar-se no próprio escrevinhador e nas suas dores, anseios e desejo dum mundo melhor, através duma linguagem poética que abusa da adjectivação, das descrições e enumerações (‘listas de mercearia’, digo eu). Além dos chamados lugares-comuns, que são a forma mais banal de estereótipo e de valor literário nulo quando usados sem outro critério do que o do seu valor expressivo.

"T-Tempo para chorar

“T-Tempo para chorar…tempo para dizer adeus…tempo para…amar…m-morrer…!”

Com o acesso de um número maior de pessoas à categoria de ‘escrevinhadores’, graças ao ensino das letras e à redução dos custos de publicação, muitos fenómenos surgiram e este é um deles. No sec.XIX surgem como precursores na poesia, nas cartas (sim, já foram um género muito apreciado), em discursos (porque houve um tempo em que se imprimiam e distribuíam discursos de todo o tipo) e em outros géneros de pendor muito diverso que se limitavam a canalizar o ‘acrisolado’ amor a temas mais terra-a-terra como a ‘pátria’, ‘a nossa terra’ (neste caso, a ‘terrinha que nos viu nascer’), a ‘história’ (da pátria ou da terrinha) e outros tópicos em voga que inflamavam facilmente auditórios e leitores de jornais.

"Empatia? Sim, percebo como pode ser útil."

“Empatia? Sim, percebo como isso possa vir a ser útil.”

Daí a figura do poeta local, do escritor da terra, aqueles que ‘imortalizavam’ a pequena cidade, cantavam os rios e as fontes, descreviam com rica adjectivação as qualidades das gentes e a excelência dos produtos da região. Os conterrâneos agradecidos, emigrantes ou residentes, mesmo que analfabetos, sabiam alguns versos ou descrições sugestivas e o nome de quem os escreveu. Algum dia, mais tarde, uma praça, uma estátua, uma rotunda, seria dedicada à egrégia figura.

-

“-Eu adoro a sua poesia!”

A acrescentar a tudo isso, temos o fenómeno muito mais recente do amor sem objecto, nem limites, decorrente da anonimidade urbana e da proliferação de escrevinhadores com obra publicada. É assim como a necessidade de gritar alto, da janela da casa, toda a indignação contra o que está mal e com total simpatia pelo que é o Bom, o Justo e essas coisas aparentemente indiscutíveis.

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.'

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.’

Ora, devo reconhecer que ambos os fenómenos não são coisa que coloquem em perigo a ordem pública, mas geralmente têm uma função mais catártica do que literária, e é aí que me volto a repetir: cuidado com o excesso das emoções na construção dos textos.

"Liberdade é

“Liberdade é mais uma palavra para fazeres o que te mandam…”                                                 Fascistas dão em péssimos cantores populares.

Mesmo privilegiando os sentimentos, l’amour fou ou se transborde de amor sobre seus semelhantes, a natureza ou alguma das infinitas categorias do divino, o uso das imagens, o rigor na construção das frases, o domínio da composição geral são ainda mais importantes precisamente pela necessidade de equilibrar a emoção com algum sentido estético. Não se trata de menosprezar a inspiração, o impulso criativo, o tema ou o propósito, mas de garantir o compromisso necessário entre o que se pretende escrever e o modo como se escreve.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

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