A escrita artificial

by escrever como?

Mais visíveis na poesia do que na prosa, os artifícios literários surgem ‘naturalmente’ por razões que se prendem à bagagem cultural do escrevinhador.

(…) Os/ duendes/ que protegem a escrita adoram, pois, pormenores,/ porém na batalha dos doze contra doze/ o que há a dizer é só isto:/ venceram os defensores das mulheres de longa biografia/e de recursos eróticos infindáveis. Venceram uns e/  umas; perderam os outros. (in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho)

 monalisa-12

Pode-se contrapor o ‘artifício’ ao ‘natural’ no sentido de ser algo feito pelo Homem em vez de produzido ou gerado naturalmente. Assim, não faz sentido polemizar se o texto caracteriza-se por ser livre de artifícios literários ou, pelo contrário, não usar uma linguagem espontânea e natural.

Oral e escrita, a tradição literária contamina todo a comunicação e não é difícil encontrar artifícios literários eruditos nas expressões mais populares.

"Maldito sejas, pássaro madrugador!"

“Maldito sejas, pássaro madrugador!”

O que os torna artificiais, no sentido comum de postiço ou falso, são o uso fora de contexto e o abuso, que tanto podem se dever ao pedantismo como à ignorância do escrevinhador. Frequentemente, são usados de modo estereotipado e até inconsciente, prejudicando o texto.

Usados com critério são uma das marcas do texto literário, o qual se distingue da linguagem comum, da publicidade e dum sms por não ter utilidade evidente, nem ser sujeito a análise contabilista.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

Os artifícios literários serão, provavelmente, tanto mais interessantes quando surgem espontaneamente e como expressão adequada do estilo, do propósito e do tema. O que, geralmente, está na proporção directa da tal ‘bagagem’ que cada escrevinhador carrega consigo.

(…) Como se atinge a respiração? Decorativa pessoa,/ adormecida luminosidade de mãos, pássaros que a flor /abre por dentro./ Manchas de algures no céu da boca. (Fragmentos in Nos Braços da Exígua Luz de Nuno Júdice  Obras Completas 1972-1985 ed.Quetzal)

"Sou uma abominação da lei de Deus!"

Sou uma abominação da lei de Deus!

Claro, quando o escrevinhador se sente confiante para desenvolver o estilo que dará corpo a um propósito, os artifícios tornam-se parte essencial do tema.

(…) Prouvera que ele morra, que eu quero ser rei e dormir com vossa majestade, já estou farto de ser infante, Farta estou de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha. Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem, e com esta sábia e céptica sentença se concluiu a conversação em palácio, primeira das muitas com que D.Francisco fatigará a rainha, (…) (in Memorial do Convento de José Saramago, ed.Caminho)

Anúncios