Escrever-como-a-vida-é

by escrever como?

O maior dos artifícios da escrita está na pretensão de construir diálogos tal-qual-as-pessoas-falam, reproduzindo regionalismos, calão, maneirismos, expressões e frases feitas, toda a panóplia de  tiques ou patologias linguísticas, características duma não-tão-óbvia idealização de tipos ou grupos numa época, num mundo, numa sociedade.

-Que importa? -Tanto dá. -Bah A FLORESTA DESENCANTADA

-Que importa?
-Tanto dá.
-Bah
A FLORESTA DESENCANTADA

A meu ver, trata-se dum artifício necessário por questões de verosimilhança. E também de tempero, já agora. Porém, como Aquilino alertava a propósito da escrita d’ O MalhadinhasReproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. (ver aqui)

Mais ainda do que o advento da fotografia, a narrativa cinematográfica (principalmente nas suas adaptações para televisão) oferece a ilusão da reprodução da vida-como-ela-é, reforçando a tentação do escrevinhador em ‘imitar a vida’. Imitação, diga-se, que tem longa tradição literária.

mona

A chamada ‘literatura de cordel’ explorou esse filão extensa e abusadamente, tornando-se um género interessante mais pelo que nos diz dum ponto de vista sociológico do que literário.

Mas, sem dúvida, contaminou com sucesso o modo como os usuários da net se deixam sensibilizar, tal como antes aconteceu com os leitores de tablóides, os ouvintes da rádio, os espectadores de televisão ou de cinema,  e o modo como confundem os conteúdos com a representação/expressão desses mesmos conteúdos.

14007209

Para o que aqui interessa, trata-se de cair nos estereótipos, no kitsch, que podem ser muito gratificantes em termos de vendas e de popularidade, mas não resistem a uma leitura minimamente crítica.

(suspiro) Eu-Eu não posso crer! Por favor, Pai...preciso de ver o Jason...ouvir a sua versão!

(suspiro) Eu-Eu não posso crer!
Por favor, Pai…preciso de ver o Jason…ouvir a sua versão!

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