A famosa torre de marfim do escrevinhador

by escrever como?

Já aqui tenho referido que o pecado capital do escrevinhador é o de ser ‘chato’. Como todas as categorizações, é discutível.

À primeira vista nem parece difícil obter consenso quanto à ideia de que um livro ‘chato’ é um mau livro, mas o que é chato para uns, pode ser sublime para outros. E começam aqui as dificuldades, sendo a  dificuldade seguinte aquela impressão de que o escrevinhador que escreve livros chatos não tem noção disso.

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Também não é das menores das dificuldades a existência de leitores chatos, tanto pela incapacidade para atingir sentidos implícitos, como para descodificar ironias, por exemplo.Ou pela total falta de resistência física e mental para prosseguir a leitura de um livro de algumas centenas de páginas.

LIVRARIA "Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor"

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“Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor”

E em todos os casos, em vez de se acusar a si mesmo, aponta o dedo ao escrevinhador e/ou ao livro.

Sobre essa espantosa criatura que é o leitor, Saramago se questionava ‘Quem lê poesia, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando o leitor assoma à entrada do poema, é para conhecê-lo, ou para reconhecer-se nele?’*

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Ora, esta é uma das tradicionais áreas de actuação de um bom trabalho editorial, uma espécie de mediação entre os recursos do escrevinhador e o potencial do leitor.

Porém, numa época em que a auto-edição e a edição por encomenda estão generalizadas (o que, por si, não é nenhum defeito), esta mediação desaparece. Entre muitos outros problemas, reforça o isolamento do escrevinhador na sua torre de marfim.

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* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago (em autocitação de artigo publicado no jornal Letras & Letras) ed.Caminho

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