Provocar a inspiração

by escrever como?

A propósito dos temporais em terra e no mar, neste momento muito mediáticos e actuais, pedem-me orientação para uma qualquer obra a ser escrita.

Quando dediquei a Dezembro uma série de posts, destaquei três temas recorrentes: o Tempo, o Natal, o Inverno. Conforme expliquei na altura, e corrigi a seguir, o mês de Dezembro será o mais sugestivo dos meses. 

Hiroshige_Hommes_sous_la_pluie

Podia fazer o mesmo mês a mês ou, em alternativa, isolar um tema (‘o temporal’) e explorar as suas linhas de força. É um modo ‘criativo’, como outro qualquer, de sondar temas que o escrevinhador pressente que tenham potencial para a sua escrita. Mas se já está impressionado com os relatos do (mau) tempo que faz por aí, então deve aprofundar a razão dessa ‘impressão’.

DANTZPLAG edward misiaszek

Pode ser o fascínio pela força da natureza em fúria. Pode ser o relembrar de outro temporal, outras catástrofes, de que, eventualmente, tenha sido testemunha ou de que ouviu contar por quem tenha assistido e/ou sofrido as consequências. 

Assim como podem ser associações, geralmente inconscientes, e que são o combustível para alimentar toda uma narrativa. Ou várias. Nesse caso, o temporal de chuva, vento e frio é pretexto para outras tormentas, mais íntimas, pessoais e menos óbvias.

Golconde de René Magritte

Como acontece, exemplarmente, em Wuthering Heights (traduzido tanto por O Morro dos Ventos Uivantes como O Monte dos Vendavais)  de Emily Brontë:

Wuthering Heights é o nome da residência do sr.Heathcliff. ‘Wuthering’ é um adjectivo com significado local, descritivo da perturbação atmosférica a que a sua situação é exposta em dias de tempestade.“*

De facto, o narrador e personagem do livro, o sr.Lockwood, irá constatar à chegada ao Monte dos Vendavais que o nome tem essa justificação, mas o título do livro alude muito mais à tempestade dos afectos e das vidas das pessoas que viveram naquela casa. Como o próprio leitor será levado a concluir.

“Meu amor por Linton é como a folhagem no bosque: o tempo há-de mudá-lo, sei bem, tal como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas por baixo: uma fonte de escasso prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff!”*

10 Turner-Tempête de neige en mer

A escolha do adjectivo ‘wuthering’, que associa o vento e o ruído do soprar do vento, sai reforçado na cena fantasmagórica que uma noite de temporal suscita, perturbando o sono do narrador:

(…) os meus dedos apertaram dedos duma pequena mão gelada! O horror intenso de um pesadelo apoderou-se de mim: tentei retirar o braço, mas a mão agarrava-o, e a voz mais melancólica gemeu, ‘Deixa-me entrar, deixa-me entrar!’ ‘Quem és tu?’, perguntei, esforçando-me, entretanto, por me libertar. ‘Catherine Linton,’ respondeu (…) ‘Voltei para casa: andei perdida no pântano!’  Enquanto falava, pude ver vagamente, um rosto de criança através da janela. O terror fez-me ser cruel; e, percebendo que era inútil tentar sacudir a criatura, puxei o seu punho para o vidro partido, e esfreguei-o para trás e para a frente até o sangue correr (…) mas continuava a gritar, ‘Deixa-me entrar!’ e persistia com o pulso fechado e tenaz, enlouquecendo-me de medo.“*

O escrevinhador faz bem em estar atento a todos os estímulos à sua veia criativa, explorando sentidos e desenvolvendo relações, tomando notas, deixando sua fantasia correr livremente. O resto virá depois, se tiver de vir.

* in The Wuthering Heights de Emily Brontë

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