Inspiração, transpiração…

by escrever como?

Por muito importante que seja a inspiração, há sempre um problema pratico e arreliante a resolver: método.

Porque, por falta de método, perdem-se ideias e sugestões inspiradoras. Tradicionalmente, o escrevinhador previdente está munido dum bloco de notas para rabiscar imediatamente o que lhe foi sugerido numa conversa ouvida casualmente ou ao passar por certo lugar sob incerta luz.

"Não te importas que escreva no meu diário?"

“Não te importas que escreva no meu diário?”

E, mesmo assim, pode lhe faltar o reflexo de anotar logo ou a argúcia em tomar nota das palavras-chave. Porque a inspiração tem algo de químico, activando hormonas que hão-de despertar memórias, associar ideias,  suscitar estórias ou encadear imagens, etc, etc, e o processo pode ser reactivado horas, dias, anos depois, pela ordem inversa, através das palavras.

Daí que, quando o escrevinhador se queixa de falta de assunto, de inspiração ou bloqueio, talvez o problema seja mais simples de entender assim.

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O meu psicólogo diz que vai levar anos para trabalhar os meus problemas de fúria, mas não tenho a certeza. Basta escrever uma estória de violência assassina e sinto-me bastante bem.

Quando ouço em resposta ah, isso dá muito trabalho! ou não se pode estar todo o tempo a tomar notas do que acontece fico com a impressão de que estou a gastar o meu latim com simples curiosos.

Gosto de falar na musa, de exaltar a paixão, de insistir no grãozinho de loucura e todas essas imagens ou ideias que transmitem a possessão no acto da escrita. Faço-o porque sei que, se até o mero leitor, também ele, quando se defronta com um certo poema ou estória, é capaz de sentir o sopro da inspiração, como não há-de senti-la o escrevinhador nas suas horas felizes obsessivas dando forma ao que lhe vai por dentro?

"O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela estão a usar luvas."

“O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela começaram a usar luvas.”

Porém, mesmo o mais sagrado dos mistérios exige ritos banais a seguir com algum escrúpulo e disciplina.

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“Helena,eu apreciaria muito se respeitasses o meu processo criativo.”

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