Impulsos aleatórios

by escrever como?

Certo: o esboço duma ideia, o fantasma duma memória há muito esquecida, um sentido imprevisto ao escutar algo, o realinhar de perspectiva frente ao horizonte sugerido por uma leitura…tudo rápido e incerto, difícil de expressar, quanto mais de elaborar.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. (…)

Quero apossar-me do é da coisa. (…) E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro.*

pintura de Clarice Lispector

Ás vezes, nem isso: é o impulso de passar por escrito relâmpagos que se acendem numa tempestade interior, íntima.

Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo às pinturas e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras __ e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão. *

Com que resultado? Ah, pois…!

Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê agora o que se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos eléctrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra.” *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

As palavras até podem surgir, mas o texto não se parece em nada com o que tão fortemente impressionara o escrevinhador segundos antes. E por mais voltas que dê, entre a ideia-intuição-sensação-não-sei-o-quê e aquilo que é escrito gera-se uma claustrofobia que provoca a sensação de impotência.

As grutas são o meu inferno. (…) Tudo é pesado de sonho quando pinto uma gruta ou te escrevo sobre ela, (…) Quero pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo pintei__e não sei como. (…) Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço. *

Mas tem um porém.

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.

(…)Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar__o que é terrivelmente difícil__ que me acompanhe. (…) Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei onde me levará esta liberdade. *

pintura de clarice lispector

pintura de clarice lispector

Tenha o escrevinhador persistência para acumular estes ‘vómitos’ (conforme já ouvi alguém dizer a propósito do que escrevinhava), coragem para os enfrentar com regularidade e método para os trabalhar, e verá acontecer debaixo dos seus próprios olhos o mecanismo da selecção natural.

(…) sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. 

Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto.

Voltei. Fui existindo. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Do caos e dos detritos, surgem conjuntos, categorias, ordens, sistemas: relações e desenvolvimentos que se impõe ao próprio escrevinhador, segundo uma lógica e um sentido que tanto podem ser misteriosamente familiares, como espantosamente originais.

Escrevo ao correr das palavras. (…)

No fundo de tudo há a aleluia.

Este instante é. Você que me lê é. (…)

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Haja método para trabalhar a inspiração. Uma outra forma de dizer: seduzir a Musa para que ela se entregue com paixão.

(…)agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti__mas é fatal.

(…) São sensações que se transformam em ideias porque tenho que usar palavras.(…)

O que te escrevo continua. E estou enfeitiçada. *

* in Água Viva de Clarice Lispector ed. Nova Fronteira

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