Palavras, chaves e magia

by escrever como?

Nunca é demais insistir na importância dos preliminares: o tempo dedicado antes resultará em maior prazer e intensidade durante e depois do acto solitário do escrevinhador. Aumentando, portanto, a possibilidade de satisfação do leitor.

"Se queremos que esta relação funcione temos de começar a comunicar.

“Se queremos que esta relação funcione temos de começar a comunicar. Começo primeiro: tira os pés de cima da mesa.”

Ora, como preliminares já foram aqui referidas alguma técnicas simples: viver uma vida, ler muito e bem, cultivar o grãozinho de loucura, viajar (mesmo sem sair de casa ou limitando-se a ir até ao fundo da rua).

E ter a rotina de tomar notas, recolher fragmentos de ideias e memórias, acumular impressões (tanto as fugazes como as duradouras), registar frases soltas e expressões…enfim, a matéria-prima de tudo o que possa se tornar um texto.

É como um diário abreviado. O importante é escrever qualquer coisa todos os dias.

É como um diário abreviado. O importante, na verdade, é escrever qualquer coisa todos os dias.

Também nisto existe o modo fácil e complicado, assim como o difícil e simples.

O primeiro caracteriza-se por anotar muito, em detalhe, obsessivamente, ou muito, pouco ou quase nada, tanto em detalhe como pela rama, obsessivamente ou nem por isso.

Por este modo o próprio escrevinhador aborrece-se e larga a rotina (ou tentativa de criação duma rotina), embrulha-se nela de modo estéril, afoga-se numa colecção de caderninhos ou ficheiros .doc de que só a muito custo extrai alguma ideia promissora.

Por vezes, acaba por descobrir a sua vocação maníaca e, com algum talento, talvez resulte em mais do que o amontoado de tretas de um observador sem critério.

13322265

O segundo modo caracteriza-se por desenvolver uma percepção (ou várias), capaz de englobar pontos de vista (perspectivas) diferentes, contraditórios, normais ou aberrantes. Numa ideia: pôr-se no lugar do Outro, sendo o ‘outro’ todo o ‘ser’ que não o do próprio escrevinhador.*

Por essa via surgem personagens autónomas e genuínas. Ou enredos complexos, verosímeis ainda que fabulosos. Ou um sopro poético capaz de abalar o leitor.

13365157

Essa percepção, na fase da tomada de notas, como deve ser registada?

Idealmente, por um número muito limitado de palavras: para se manter disponível (ou o escrevinhador passa à redacção de um rascunho ou vive o momento, é ilusório fazer ambas as coisas simultaneamente) e para apurar os sentidos crítico e estético que, mais tarde, serão fundamentais para recuperar a intensidade daquele momento.

1528598_10152138888307290_1982333032_n

 

Daí empregar o termo ‘palavras-chave’: aquelas que, no imaginário e sensibilidade do escrevinhador, ajudam-no a reviver o momento original e inspirador. Quais são? Querem uma dica?!

Bem, essa é uma descoberta a fazer por si próprio. É como o outro que dizia que ‘lyrio’ com ‘y’ é que representava a flor.

Quando bem feito, a magia acontece.

ku-xlarge

* Dito assim para simplificar, pois há escrevinhadores que exprimem o Outro em si mesmo, escrevinhador, quando não mesmo os Outros (não, não se trata de transtornos de personalidade).

 

Anúncios