O poder da palavra

by escrever como?

Mais do que o comum dos mortais, o escrevinhador deve ter consciência do poder da palavra oral e escrita. Afinal, não é outra a matéria-prima do seu ofício, passatempo ou paixão. Porém, tanto existem os fetichistas da palavra como pululam os seus banalizadores.

desenho de thomas-broome

desenho de thomas-broome

Arte vem do latim ars, artis. É uma raiz na língua latina. É natural que venha também do grego. A etimologia desconhece-lhe a procedência. Temos, pois, que seguir por outros caminhos. Vamos, por exemplo as palavras compostas com a raiz latina Arte. E temos imediatamente artelho, articular, artificial, isto é, palavras que designam não só o movimento como também o próprio fornecimento do movimento.

Além disto, encontramos também a palavra inerte que quer dizer ‘sem movimento’ ou à letra: sem arte. E a seguir aparece-nos o mais extraordinário destes exemplares, a palavra artilharia. […] E neste caso o que significava então artilharia? Exactamente isso: o poder do engenho, a força do artifício.

(in Textos de Intervenção ‘arte e artistas’ (II parte) de José Almada Negreiros ed.Estampa)

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Ora, a palavra nada tem de sagrado ou poderoso em si mesma, tal como qualquer de nós poderá experimentar ao ouvir egípcio antigo. E, contudo, conforme a entoação e a voz, o ouvinte poderá ser enfeitiçado pela sonoridade das palavras desconhecidas. Aqui pode se tratar da magia da música e do cântico, mas o mesmo se pode repetir só de ver textos escritos na forma cuneiforme ou em hieróglifos. Efeitos secundários do desenho, do grafismo, da caligrafia?

poema gráfico O Organismo de Décio Pignatari

poema gráfico O Organismo de Décio Pignatari

Regressando ao aqui e agora das nossas preocupações triviais: acrescente-se ao que foi dito acima o sentido das palavras, e o que temos?

O feitiço da sonoridade, a magia da música e do cântico, os efeitos secundários do desenho das letras/palavras, e o turbilhão das emoções para que o sentido nos arrasta ao mexer nas memórias íntimas, ao suscitar a polissemia, ao levar-nos para a geografia da ambiguidade.

"Um momento! Ontem tinha dito que X era igual a dois".

“Um momento! Ontem tinha dito que X era igual a dois!”

Nem palavra sagrada (ou hieróglifo), nem palavra gasta: o escrevinhador com pretensões literárias tem aqui um mundo sempre novo por explorar, ainda que descubra, a cada passo, vestígios de antigas cidades e marcas de exploradores que já por aqui passaram. Normal, pois quando se fala da ‘palavra’, é da linguagem que falamos, na verdade. Ou da ‘Língua’. Como ‘Língua Portuguesa’.

Quanto a mim, não sei línguas. Trata-se da minha vantagem. Permite-me verter poesia do Antigo Egipto, desconhecendo o idioma, para o português. Pego no ‘Cântico dos Cânticos’, em inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e sobretudo, um poema meu.

(in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio & Alvim)

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