Horizontes da escrita

by escrever como?

Um dos atractivos e paradoxos da actividade do escrevinhador é que a medida do seu talento, a produção de uma obra literária interessante (senão mesmo magnífica), não tem nada a ver com ter vivido uma vida com a mesma grandeza.

Inversamente, pessoas que viveram vidas de aventura, paixão e combate podem resultar em medíocres escrevinhadores. O que serve de alerta para os mais apressados: a expressão escrita e a criação literária dependem de algo mais do que inspiração e desejo.

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Porém, não se deduza daí que a vida banal, monótona e sem cultivar interesses é porta aberta para uma carreira literária de sucesso.

Em todos os tempos, o escrevinhador que soube transformar o seu dia-a-dia em material bruto para a poesia, a ficção ou algum tipo de estudo, memorialismo, reflexão, pôde transcender os limites duma vida obviamente limitada.

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ouve todo o mal-observa todo o mal-posta todo o mal

Conversas, viagens e usufruir livros, pinturas, músicas, filmes, são contributos acessíveis ao escrevinhador do terceiro milénio d.C., boa parte deles já aproveitados com sucesso por outros escrevinhadores dos milénios passados.

Como faz o próprio Dante pedindo a Virgílio que o guie: ” ‘Poeta, me concede (…) que tu me leves lá onde disseste, à porta de São Pedro, ora te rogo, e a esses que tão tristes descreveste.’ Então moveu-se e eu seguiu-o logo.” (Inferno canto I in A Divina Comédia de Dante Alighieri trad.Miguel Graça Moura, ed.Bertrand)

O desafio que se coloca ao escrevinhador mantém-se intemporal: desenvolver uma óptica peculiar, distintiva, ‘original’.

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Mas sem chegar ao apuro de Tzinacan, mago da pirâmide de Qaholon, que depois de ‘longos anos a aprender a ordem e a configuração das manchas‘ do pêlo do jaguar, decifrou-as e entendeu que aquela forma de escrita era ‘uma fórmula de catorze palavras casuais (que pareciam casuais) e bastar-me-ia dizê-la em voz alta para ser todo-poderoso‘.

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Tzinacan nunca as disse, apesar de com isso ganhar a liberdade, recuperar a juventude e obter a imortalidade. E porquê? ‘Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo, não pode pensar num homem, nas suas triviais venturas ou desventuras, mesmo que esse homem seja ele. (…) Por isso não pronuncio a fórmula, por isso deixo que os dias me esqueçam, deitado na escuridão.’ (A escrita do Deus in Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa)

Mas Tzinacan é um mago, um místico, sem intenções de escrevinhar para os seus contemporâneos ou para a posteridade.

A óptica peculiar de que falo pode ser entendida como a fuga à repetição, mesmo que em processo de re-criação. Como se o cume da criação literária seja o dispensar da Musa (tradição, cultura) e do demónio interior (afectos, influências).*

Numa perspectiva crítica rigorosa, provavelmente se resumem a uma, duas dúzias, os que foram capazes de o fazer.

Que importa? O desafio é um aguilhão ao conformismo da auto-satisfação.

"Se não acreditas em ti, quem acreditará?"

“Se não acreditas em ti, quem acreditará?”

E a esse desafio acrescente-se o domínio formal da escrita, da Língua. Principalmente se aparenta subvertê-la.

Demasiada areia para todos nós, escrevinhadores anónimos e inseguros, não é mesmo? E contudo, quantos livros não foram feitos segundo o mote ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘?

*se bem entendo Harold Bloom em A Angústia da Influência uma teoria da poesia trad. Miguel Tamem ed. Cotovia

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