O escrevinhador no seu labirinto

by escrever como?

Perante a dispersão das atenções do potencial público-leitor e a concorrência avassaladora de outras formas de entretenimento, é natural que o escrevinhador se sinta perante o dilema de explorar processos narrativos que sigam o gosto dominante, daí tentando criar o ‘seu’ público; ou esquecer tudo isso e escrever para o leitor ideal, o qual é, na verdade, um reflexo de si mesmo.

Problema de Marketing

São dúvidas legítimas e sem resposta definitiva, pois encontram-se exemplos de sucesso editorial em ambos sentidos. A meu ver, trata-se mais de um sucesso do trabalho da editora do que do escrevinhador, sem desprestígio para nenhuma das partes, nem dos leitores. Por isso, neste blog não há dicas para se escrever assim ou assado, mas simplesmente sugere-se, neste capítulo, que o escrevinhador tenha em consideração se realiza de modo satisfatório os seus propósitos, ao assumir uma ou outra destas vias. E só.

"Espero que vocêstodos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo."

‘Espero que vocês todos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo.’

Grande sucesso editorial tiveram autores como Alexandre Dumas, Júlio Verne ou Emílio Salgari, sendo ainda nomes familiares para muita gente com mais de quarenta anos, e alguns dos seus livros ou heróis ainda são populares entre gerações mais novas graças às adaptações para televisão e cinema. Os três tiveram uma produção tão prolífica que seria impossível esperar o mesmo nível de qualidade no conjunto da sua obra. E, do ponto de vista da crítica, são autores de muito menor valia literária do que o seu sucesso.

"Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui."

“Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui.”

Porém, tendo sido casos de influência duradoura, muito além do seu desaparecimento físico, marcando os gostos e a imaginação popular de várias gerações, tornaram-se modelos da escrita de estórias de aventuras, amor e intriga política, fortemente dependentes do contexto histórico, científico e/ou geográfico da narrativa e que constitui sua ‘imagem de marca’.

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Que esta reflexão ‘não se limite a ser um exercício de nostalgia mas ocasião para iniciar um discurso crítico. Sem que isto, obviamente, seja turvado por preconceitos irónicos ou moralistas demasiado imediatos, capazes de inquinar aquilo de que muitas destas páginas sabem dar: a alegria da narrativa por si mesma.‘ (in Il Superuomo di Massa-retorica e ideologia nel romanzo popolare de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani)

"Li-os a todos."

“Li-os a todos.”

Ao escrevinhador do sec.XXI dificilmente lhe surgirá o desafio do folhetim nos jornais ou algo parecido, mas permanece o da escrita que prenda a atenção do leitor,dando satisfação ao autor. E se houver ainda um editor contente, tanto melhor para todos.

Todavia, não deixe o escrevinhador de ter presente que o universo literário é muito mais vasto do que tudo isto.

 

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