Poesia, essa coisa esquisita

by escrever como?

A escrita da poesia só aconteceu muito depois da produção de obras poéticas, as quais por serem destinadas à recitação, utilizavam recursos que auxiliavam a memorização, a declamação e a compreensão: métrica, rima, repetição.

venus de Ticiano

A utilização de recursos ‘não-literários’, como a música ou a dramatização, a acompanhar a declamação, garantia maior sucesso entre o público, certamente. Reciprocamente, a música e o teatro apropriaram-se da poesia para desenvolverem géneros musicais e dramáticos.

Os homens muito incultos abanam a cabeça diante de frases estranhas,/ e falam em erros evidentes no ajuntamento das/ palavras;  já os minimamente cultos acariciam a barriga/ como se digerissem uma perna de porco,/ satisfeitos com a declamação de um poema básico, onde/ todos dizem gostar muito da mãe. (in Uma Viagem à Índia canto V de Gonçalo M. Tavares ed.Caminho)

A escrita e, muito mais tarde, o livro impresso, expandiram a divulgação poética, ao mesmo tempo que a transformaram.

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A poesia deixou de estar dependente de declamadores e os recursos estilísticos tornaram-se mais complexos, já que a poesia lida pode ser relida inúmeras vezes. A noção de ‘autor’ impôs-se, reforçando a componente subjectiva, pessoal, libertando-se do espartilho das convenções.

Deponho/ suponho e descrevo/ a pulso  / subindo pela fímbria/ do despido  /  Porque nada é verdade/ se eu invento/ o avesso daquilo que é vestido  (Invento in Só de Amor de Maria Teresa Horta ed.  D.Quixote)

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Inclusivamente, a poesia deixou de ter no verso um elemento essencial, entrando assumidamente no universo da prosa, ao qual, aparentemente, não pertencia.

O que se mantém, provavelmente, é a importância dada ao ritmo, à sonoridade, aos recursos expressivos, à forma. Repito: a importância dada, e não esta ou aquela norma mais ou menos assumida pelos escrevinhadores. Ou a mais popular.

Sou um reflexo no vidro. Olho-me/ fixamente, e o poema capta-me nesta atitude./ Pudesse eu conhecer-me como se conhece/ o poema… (…) No entanto estou aqui. Entre mim e o poema/ opaco a ambos, sem nada para dizer (Descrição de um Lugar in As Inumeráveis Águas de Nuno Júdice ‘Obra Poética’ ed.Quetzal)

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Talvez por tudo isto, seja tão fácil identificar um texto poético e tão difícil defini-lo.

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