E agora algo completamente diferente *

by escrever como?

*título de um famoso sketch dos Monthy Python

Pondo de lado os diversos tipos de censura literária e os critérios editoriais, a actividade literária tem evoluído para a dessacralização das regras, a liberdade de opção estética, o direito a escrever como o escrevinhador entende. Inclusive o de versejar com parâmetros métricos ou formais consagrados, anacrónicos ou outros.

Pode-se dizer e, por conseguinte, escrever seja o que for sobre seja o que for. Raramente nos detemos para observar ou confirmar este lugar-comum. Mas habita-o uma enigmática desmesura.(1)

É nesse sentido que formulo a expressão vale tudo e nada é garantido. O ‘nada’, bem entendido, é a receptividade do texto, o seu sucesso entre críticos, editores ou leitores. Ou a esperança de que uma posteridade ofendida vingará a memória do escrevinhador ignorado no seu tempo.

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

Vingança póstuma, aliás, ameaçada pela produção (e publicação) massiva de textos com pretensão literária. E a poesia, na minha limitada percepção, é a fórmula literária mais popular actualmente, como era há 500 anos atrás.

Se nada o limita, se nada tem a perder, porque há-de o escrevinhador abafar sua criatividade?

-Para teu bem, é melhor que o que vais dizer seja realmente importante!

-Para teu bem, é bom que o que tenhas a dizer seja realmente importante!

Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é um modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Mas de qualquer modo há alguma desfasagem.Começa assim: como o amor impede a morte, e não sei o que estou querendo dizer com isto.(2)

Existe uma componente experimental na escrita, a nível do estilo, do tema, do enredo, até da própria linguagem e grafismo, que, por natureza, tende a aperfeiçoar com a persistência e o tempo. Se isso não acontecer, desista, caro escrevinhador: o seu caminho não é por aí.

BELEZA-INTERIOR

(a respeito da poesia pode ainda dizer-se:—A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.) 

(Evita as tentações da teoria: o poema é uma coisa veemente e frágil. E não é frontal, mas insidiosa.) (3)

E como calibrar critérios de ‘perfeição’ numa via experimental? Seduzindo leitores, parece-me óbvio. Mas pode alguém seduzir se não estiver, por sua vez, seduzido por aquilo que faz?

O pior é que pode, o excessivo rigor ou a simples insegurança não impedem que se escreva textos gloriosos que o próprio escrevinhador tentará destruir, quantas vezes com êxito. Recorde-se o caso clássico do poeta Virgílio: deixou indicações escritas para que a obra-prima Eneida fosse destruída (eventualmente por estar a morrer e ter deixado a obra sem o desenvolvimento previsto, nem as revisões necessárias).

LIVROS RAROS "Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade."

LIVROS RAROS
“Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade.”

…E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos.(4)

Ora, torna-se pedagógico para o próprio escrevinhador desenvolver experiências, fugir às rotinas técnicas, temáticas e outras.

Deste modo torna-se consciente dos seus limites e percebe melhor aonde pode ir, se tentar.

Acima de tudo, a meu ver, torna-se crítico de si mesmo, nomeadamente das fórmulas estereotipadas como estrutura as ideias, como formata a sua expressão, o próprio vocabulário.

O que atrai o escritor, o que agita o artista, não é directamente a obra, é a sua busca (…). Daí que o pintor a um quadro prefira os diversos estados desse quadro. E o escritor muitas vezes deseja não acabar  quase nada, deixando no estado de fragmentos cem narrativas cujo interesse consistiu em terem-no conduzido a certo ponto.(5)

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO "A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito."

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO
“A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito.”

(1) in Presenças Reais de George Steiner ed.Presença trad.Miguel Serras Pereira

(2) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Nova Fronteira

(3) in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio e Alvim

(4) in A Gaia Ciência de Frederico Nietzsche, ed.Guimarães & Cª, trad.Alfredo Margarido

(5) in O Livro Por Vir de Maurice Blanchot ed.Relógio d’Água trad.Maria Regina Louro

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