Armas e palavras são iguais, matam igual *

by escrever como?

*título retirado de Le Chien, de Leo Ferré

Existem escrevinhadores que fazem um uso parcimonioso da palavra, parecendo suspende-las entre a imediatamente anterior e a seguinte, compondo as frases nesta frágil estrutura em que qualquer mudança ameaça o sentido.

(…) Palavras silabadas/ Vêm uma a uma/ Na voz da guitarra  

A música do ser/ Interior ao silêncio/ Cria seu próprio tempo/ Que me dá morada

Palavras silabadas/ Unidas uma a uma/ Às paredes da casa (…) 

(in Bach Segóvia Guitarra de Sophia)

Há contenção, como que um pudor em não malbaratar palavras, todas preciosas, todas necessárias. E, por isso mesmo, supérfluas quando nada acrescentam.

-Quando nos reunimos somos mesmo ordinários!

-Quando nos reunimos todos somos mesmo ordinários!

O ouvido do escrevinhador percebe o ritmo da frase sílaba a sílaba, o tempo do silêncio entre frases, e a musicalidade ganha forma, construindo o poema.

(…) Que diremos ainda? Serão palavras, /isto que aflora aos lábios? 

Palavras?, este rumor tão leve /que ouvimos o dia desprender-se? 
Palavras, ou luz ainda? 

Palavras, não. Quem as sabia? /Foi apenas lembrança doutra luz. 
Nem luz seria, apenas outro olhar.

(in Que diremos ainda? de Eugénio de Andrade)

Pode haver uma relação física mais evidente ao envolver outros sentidos, como o táctil, apelando ao movimento e ao toque. Como se a palavra escrita passe pelos lábios antes da mão a desenhar no papel (há escrevinhadores que, também por isso, não abdicam dos rascunhos toscos a lápis ou caneta antes de passá-los para o computador).

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Sei que não são dicas fáceis quando o escrevinhador já tem dificuldade em ‘produzir’ texto para expressar suas ideias ou emoções. Mas o processo tem várias fases e depende do próprio escrevinhador, como é óbvio.

Este trabalho, que já comparei ao de lapidar pedras preciosas, também pode ser análogo ao de um relojoeiro (dos antigos, evidentemente).

Para chegar aqui há que ter matéria bruta para trabalhar (ou peças soltas para montar). Só depois vem o processo criativo mais elaborado.

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‘O Relojoeiro’ de Zu

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