Engenharia literária

by escrever como?

Seja uma obra em verso, seja em prosa, o escrevinhador pode dividi-la em secções para benefício da clareza, da unidade/diversidade interna, da dinâmica da leitura, por qualquer outra razão que entenda válida. Bem entendido, pode não fazer nada disso.

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A divisão por capítulos, livros, partes, reforça a intenção que engloba o todo, eventualmente o propósito, o tema, o estilo e/ou o enredo, estruturando-os de modo a obter um efeito.

Ou, para respeitar o óbvio conforme Aristóteles: ‘ O todo é o que tem principio, meio e fim. Um início é aquilo que não é necessariamente depois de outra coisa e tem naturalmente algo a seguir; um fim é aquilo que é naturalmente depois de alguma coisa, como consequência necessária ou habitual, e sem mais nada a seguir; e o meio é aquilo que está naturalmente a seguir a qualquer coisa e tem também outra a seguir.’ (in Arte Poética)

"Mas não nos tinha ensinado de que o todo é maior do que a soma das partes?"

“Mas não nos tinha ensinado de que ‘o todo é maior do que a soma das partes’?”

Tendo isto em mente, o escrevinhador tanto pode começar a meio da estória, como pelo próprio fim: em Todo-o-mundo, Philip Roth apresenta-nos uma narrativa biográfica que começa pelo funeral da principal personagem e termina com ela a morrer.

Entre outros méritos, a meu ver, está o trabalho do escrevinhador ao regular a tensão ao longo do texto: aqui mais tenso, ali menos, muito mais lá para a frente, muito menos a seguir, e assim por diante. Sobre a ‘tensão’ já me expliquei aqui.

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Conforme o leitor habitual deste blog já terá reparado, para cada regra existem exemplos que revelam a arbitrariedade das regras: vale tudo.

A ausência das divisões, a dinâmica aparentemente circular da narrativa que parece não evoluir , assim abafando a tensão, também funcionam muito bem: Mazurca para dois mortos, de  Camilo José Cela, é um expoente dessa técnica. Porém, exige maior disponibilidade do leitor…

 

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