Forma e Conteúdo

by escrever como?

Estruturar a obra por partes permite ao escrevinhador observar quebras de qualidade, de ritmo, de interesse, de foco.

Argumentista de Cinema

Argumentista de Cinema

 

Ou seja, auxilia-o a avaliar as partes na sua relação com o todo, podendo assim eliminar um capítulo que está a mais (ou acrescentar mais um), mudar sua inserção uns tantos capítulos mais adiante ou mais atrás, confirmando se cumpre com as expectativas da narrativa ou se as compromete, etc.

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade.

Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor.

Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem… *

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Esta divisão não tem de ser assumida de modo evidente e gráfico: capítulo I, capítulo II e segs.. Pode até ser ‘baralhada’ pelo escrevinhador na fase final da escrita, alterando cronologias, sequências, obtendo efeitos como o trair as expectativas iniciais do leitor e surpreendê-lo.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim,
isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. *

"estou escrevendo o meu obituário, mas com um truque: eu engano a morte no último minuto."

“Estou escrevendo o meu obituário, mas com um truque: eu engano a morte no último minuto.”

Conforme já algures por aqui sugeri, depois do árduo e longo processo de escrever uma estória (ou um livro de poemas, já agora), o escrevinhador pode considerar, mais tranquilamente, mudanças formais.

Meu caro crítico,
(…) O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo. *

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-Ok…então todos concordamos que isto tudo é por minha causa!                                                             A VITÓRIA DO EGOCENTRISMO

 

Essas alterações podem fazer a diferença, permitindo a liberdade e ousadia de lidar com um tema eventualmente banal, chocante, aborrecido, desagradável, absolutamente desinteressante, absurdo ou ridículo, e tratá-lo de forma original.

(…) ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. *

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* in Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

 

 

 

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