Pós-produção literária

by escrever como?

A escrita move-se com incomparável liberdade nos dias de hoje, se comparada com épocas anteriores. Não me refiro à censura, oficial ou dos costumes, mas às questões de gosto e de estilo. Ao longo da História da Literatura surgem convenções ou tendências que formulam as grandes linhas de orientação, como a aqui expressa por Zola em 1880:

Nos meus estudos literários, muitas vezes falei do método experimental aplicado ao romance e ao drama. O regresso à natureza, a evolução naturalista que marca o nosso século, influência pouco a pouco todas as manifestações da inteligência humana na mesma via científica. Só a ideia de uma literatura determinada pela ciência pôde surpreender, à falta de ser explicada e compreendida. (1)

de EVA VÁZQUEZ

Imagem de EVA VÁZQUEZ

E também são variadas e acessíveis as modalidades de edição e divulgação dos textos. O que não é o mesmo que dizer que se tornem conhecidos e apreciados.

Daí ser pertinente meditar um pouco sobre a escrita ‘original’ e o problema de chegar a um público-leitor mais alargado.

A originalidade é sempre um conceito polémico e algo estéril, mas aqui o entendo como o texto que o escrevinhador realmente gosta, se identifica, ou, mesmo a contragosto, sinta que é aquilo que lhe sai da alma.

Obviamente, esta originalidade não tem de ser criativa, nem ‘única’, e muito menos ser ‘de qualidade’. Sem com isso cair no criticismo que Tolstoi desenvolve à volta do poema Ariette de Verlaine:

Como é que a lua parece viver e morrer num céu de cobre? E como pode a neve brilhar como areia? Toda a coisa não é só meramente ininteligível, mas,  sob a pretensão de provocar uma impressão, desenvolve uma série incorrecta de comparações e palavras.(2)

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Seja como for, a produção de textos (não interessa se prosa, se verso, se longos ou curtos) pode  sofrer uma transformação qualitativa após a sua conclusão.

E creio que o maior erro do escrevinhador está em desvalorizar, descurar ou, simplesmente, ignorar todo o trabalho a desenvolver depois da fase criativa concluída. Trabalho que pode levar mais tempo do que o criativo, na verdade.

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Há escrevinhadores que avançam lentamente porque precisam de corrigir metodicamente o texto escrito conforme progridem; provavelmente, por essa razão não se sentem dependentes do trabalho ‘pós-produção'(na verdade, já o fizeram em grande medida), e pode ser que estejam certos.

Outros, mesmo avançando lentamente, não têm essa preocupação ou método, escrevinhando ao sabor da inspiração (ou do que é que os motive), pouco mais fazendo do que algumas correcções ortográficas no fim. Dizem que é para manter a espontaneidade ou por recearem deitar tudo fora e ter de começar de novo. O problema é se, também eles, estão certos em proceder assim.

Mas o problema é exclusivamente deles, evidentemente…

 

(1)  in Le Roman Expérimental de Emilio Zola

(2) in What is Art? de Leão de Tolstoi

 

 

 

 

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