Escrever para chegar ao fim

by escrever como?

Uma coisa boa a respeito da ‘falta de fôlego’ do escrevinhador, tema do post anterior: resulta, na esmagadora maioria dos casos, duma consciência auto-crítica sobre o valor do texto.

Depois de doze minutos/Do seu drama  O Marinheiro/Em que os mais ágeis e astutos/Se sentem com sono e brutos,/E de sentido nem cheiro,/Diz uma das veladoras/Com langorosa magia:/ 

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda?

/Ora isso mesmo é que eu ia/ Perguntar a essas senhoras…(1)1982260_797510686944822_1081620113_nO escrevinhador percebe que esgotou a capacidade de inovar, acrescentar, renovar, limitando-se a produzir texto a metro, e mesmo assim com muito custo. Obviamente, o resultado não o pode satisfazer.

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu./Senti de mais para poder continuar a sentir/ Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. (2)

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-Primeiro tens de gostar de ti mesmo. -De mim?!…Eu mereço melhor!

Se parar, guardando o texto numa gaveta e aproveitando para arejar as ideias, talvez seja beneficiado por uma lufada de inspiração mais tarde. Ou abandone o projecto.

Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…/É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…Prá frente! (3)

Infelizmente, muitos assumem o ‘dever’ de lhe dar um fim, arrumando de vez com aquela tarefa penosa. Percebo que o façam por obrigação contratual, mas isso só beneficiará a lista dos monos, caso venham a publicar.

(…) Se há um plano/ Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…) (4)

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Contudo, a imensa maioria não está sujeita a prazos, muito menos a contratos. Sem gosto, nem proveito, porque insistem?

Vou atirar uma bomba ao destino. (5)

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Sem entrar nas águas turvas da criação artística, creio que a resposta está no nível emocional do exercício da escrita literária: a generalidade dos escrevinhadores escreve por necessidade interior, como se o acto ajudasse a por em ordem as ideias, os sentimentos, a vida. Que não é uma terapia cem por cento eficaz demonstra-o a legião de suicidas, alcoólatras,  e doidos que brilharam (e brilham) no universo literário.

Mas escrever como terapia também não é garantia de que o escrevinhador se torne melhor pessoa, e muito menos de que os seus escritos se elevem da mediocridade.

Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!/Hé-lá! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!/Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (6)

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(1) in A Fernando Pessoa depois de ler o seu drama estático “O Marinheiro” em “Orpheu I” ; esta e as citações seguintes são da autoria de Álvaro de Campos  Poesia vol.I ed.Planeta DeAgostini

(2) in Ode Marítima

(3) in Carnaval

(4) in Saudação a Walt Whitman 

(5) Poema nº 42 (sem título)

(6) in Ode Triunfal

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