As temíveis primeiras linhas

by escrever como?

Quando o escrevinhador sente que é chegada a hora de colocar um ‘fim’ ao texto pode ser que tenha melhores soluções para o início, a abertura, as primeiras linhas.

E porquê nesta altura? Talvez por estar aliviado do peso, da tensão, do ímpeto, com que desenvolvia o tema até lhe dar uma conclusão. Por isso, está em condições de aperfeiçoar as frases, as ideias, a ordem dos acontecimentos.

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Ora, título e abertura são dois aspectos essenciais para que o leitor seja ‘agarrado’.

Não se trata de ‘marketing’ (que aqui neste blog muito se respeita e aprecia), nem de concessões fáceis a supostos gostos dominantes. As soluções variam e a única regra que proponho é a de não defraudar as legítimas expectativas do leitor.

Mesmo tendo esta regra muitas excepções (não menos legítimas quanto as referidas expectativas) ou sejam outras tantas as maneiras de trocar as voltas ao leitor sem o defraudar, em qualquer dos casos o factor surpresa, a evidência que o leitor passa sem notar (por precipitação ou preconceito), o enquadramento posterior que altera todo o entendimento inicial, são possibilidades a explorar pelo escrevinhador.

Portanto, trata-se de uma espécie de jogo entre quem escreve (que sabe o que quer e qual o remate final do escrito) e o leitor que entra em jogo só com os dados que o escrevinhador lhe dá.

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A narrativa ou poema não têm sequer de extrair o sentido a partir do tema, mas na forma como lidam com ele. Aparentemente, trata-se do domínio formal. Isso porque distinguimos, muitas vezes, entre forma e conteúdo, dicotomia que nem é pacífica, nem, muito menos, obrigatória, no âmbito literário: a escrita é forma e conteúdo, evidentemente.

Vejam-se, por exemplo, a forma encantatória do conto infantil (era uma vez…), o exórdio inspirador do poema homérico (fala-me, ò Deusa ou canta-me, Musa…), a fórmula dos evangelhos iniciarem um novo episódio da vida de Cristo (naquele tempo…): são aberturas formais perfeitamente conhecidas, criadas a pensar na recitação para um público ou ouvinte, e que têm como conteúdo uma estória mil vezes recitada ou um género claramente identificado.

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Com a popularidade da escrita e a ‘invenção’ do autor, a originalidade passa a exigir uma abertura menos óbvia e estereotipada. O enredo procura surpreender, inclusive na        (a)moralidade final, na ausência duma ‘mensagem’, na distância pretendida para com eventuais modelos e fontes de inspiração.

Como, pelo contrário, podem ser —abertura, enredo, conclusão, personagens— absolutamente ‘normais’, sem ‘efeitos especiais’, e surpreender pela linguagem, pelo estilo das frases, etc.

Vale tudo, não é mesmo? Excepto escrever livros aborrecidos.

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